O Mundo do Samba
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A aquarela muito brasileira da família Silas de Oliveira

7 de abril de 2017
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A aquarela muito brasileira da família Silas de Oliveira

EDUARDO CARVALHO

Elenice, José Mário e VeraVera, Elenice e José Mário estão em pé na pequena varanda. Acompanhados por amigos, familiares e pelo som da faca roçando no prato que Junior toca, cantam “Aquarela Brasileira”. O samba-enredo – um clássico que o Império Serrano levou para a Avenida originalmente em 1964 e que há décadas figura em qualquer lista com os melhores da história – tem um único autor: Silas de Oliveira. Silas, o maior compositor do gênero em todos os tempos, é pai de Vera, Elenice e José Mário – e avô de Junior.

Silas fez “Aquarela” sem parceiros, algo muito raro em se tratando de samba-enredo, mesmo naquela época. Mas pouca gente sabe que a “solidão” para compor esse samba foi um desafio que ele impôs a si mesmo para mostrar que, ao contrário do que alguns maldosamente andavam insinuando, Silas de Oliveira sabia, sim, fazer um samba-enredo sozinho.
– Na época, tinha gente no Império fazendo umas fofoquinhas, dizendo que o papai só fazia samba com parceiros, não era capaz de compor sozinho. Chegaram a falar que ele só era compositor de “lalaiá”, vê se pode uma coisa dessa? Aí, quando chegou a hora de fazer o samba pro Carnaval de 64 ele botou na cabeça que ia compor sozinho. E fez o “Aquarela Brasileira” – revela Vera Lúcia Assumpção de Souza, 69 anos, filha de Silas.

Estamos na casa de Vera, um sobrado da Rua Guaíba, no subúrbio carioca de Brás de Pina. Ao lado dela, a irmã Elenice dos Santos Reis, 62, e José Mário dos Santos Assumpção, 49, vão trazendo à tona as suas memórias do pai, do Império Serrano e da mãe. Junto com Silas dos Santos Assumpção, 52 (que não pôde estar presente por motivo de trabalho), são os únicos descendentes diretos vivos de Silas e Elane dos Santos, sua mulher e companheira de toda uma vida, parente de Sebastião Molequinho e Dona Eulália, fundadores do Império.

– Quando papai estava começando a compor um samba-enredo, ele estudava muito o tema, ficava isolado. Depois vinha até mamãe e dizia: “Elane, escuta aí, decora essa parte”. Então, cantava pra ela gravar na cabeça aquele pedaço e depois continuava a compor – conta Vera.

– Na hora de defender o samba na quadra, era mamãe que cantava, puxava o coro das pastoras – completa Elenice.

Manuscrito Silas– Ela era prima da Eulália e uma das primeiras costureiras do Império. Ela já era do Prazer da Serrinha [escola do morro da Serrinha, em Madureira, da qual saiu um grupo dissidente para criar o Império Serrano, em 1947] quando conheceu o papai. Ele viu aquela bonitona, né, e não deu outra – diz José Mário.

Filho caçula, ele tem o mesmo nome do avô, o professor Assumpção, pai de Silas (e de outros 14 filhos) que foi dono do Colégio Assumpção, nos anos 40. José Mário sabe de cor os sambas do pai e refaz a trajetória dele em detalhes, sempre se referindo ao que a mãe lhe contava, sempre emocionado com o orgulho sincero que sente por ser filho de quem é.

A tarde avança devagar. Um ou outro vizinho passa, cumprimenta. Um ou outro agregado chega e já somos umas vinte pessoas ali, entre sobrinhos, primos, noras, genros e amigos da família. O churrasco vai sendo servido, as cervejas vão sendo abertas e o Silas de Oliveira que vamos encontrando é, cada vez mais, o Silas pai e companheiro, e não o quase mítico compositor.

– Eu me lembro do companheirismo dele, né? Ele é quem nos fazia mais companhia, até porque a minha mãe saía pra trabalhar como doméstica e teve um bom tempo em que ele ficou desempregado. Então, o papai fazia tudo aquilo que, na época, as mães costumavam fazer: arrumava a gente, penteava o cabelo da gente, levava pra escola, depois colocava a gente pra fazer o dever de casa… era muito companheiro mesmo – recorda-se Elenice.

Vera conta que Silas fazia questão de que as filhas (na época, os meninos ainda não tinham nascido) fossem ao samba com ele:

– Ele ia ao samba, no Império ou em qualquer outro lugar, e dizia: “Elane, se arruma e arruma as meninas”! E não proibia a minha mãe de sair, o que naquela época não era comum, os homens praticamente não deixavam as mulheres saírem sozinhas.

– Eu sinto muita falta porque eu gostava muito desse companheirismo dele. Além de a gente ser muito orgulhoso por ele ter sido quem foi, por ter tido esse dom que ele teve, eu guardo esse lado parceiro dele, de pai mesmo – acrescenta Elenice.

Irônica, Vera “reclama” do dengo que a irmã fazia.

– Elenice era a mais dengosa. Como na época era a caçula, vivia fazendo queixa da gente. Aí o papai falava: “Vocês deixem a menina”! E eu falava pra ela: “Você vai ver só” – conta, rindo.

Silas com o filho Silas quando criança– É porque ele tinha isso, o filho mais novinho era ainda mais cercado de cuidados. Ele olhava todos, mas o filho da vez era o mais novinho em cada momento da vida – Elenice se defende.

Silas Oliveira de Assumpção chegou à Serrinha ali por 1935, aos 19 anos, e pouco depois começou a compor sambas na escola Prazer da Serrinha. Em 1947, o seu nome constava da lista original dos primeiros fundadores do Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano. De 51 a 69, ele teve sambas-enredos seus (feitos só ou com parceiros, como o grande Mano Décio da Viola) cantados pela Verde e Branca de Madureira em 13 carnavais. Isso sem falar em outros anos em que há indícios de que tenha participado da composição do samba, mas não assinado – como mostram os pesquisadores Rachel Valença e Suetônio Valença no imprescindível “Serra, Serrinha, Serrano – O Império do Samba”, livro que conta a história da agremiação.

Disso a gente já sabe. É um feito impressionante, uma marca de qualidade que não se vê mais. O que a gente pouco sabia até aqui era sobre esse “Silas-família” e que viveu, não sem dificuldades, tão somente da sua arte, sem nunca ter deixado de ser quem era. E é essa a saudade que mais permanece no coração dos seus filhos.

– Quando a gente ficou mocinha, ele queria a gente muito tradicional. Comprava umas boinas muito bonitas pra gente sair. Eu e minha irmã Neném [Nanci, falecida em 1965, aos 15 anos], as mais velhas, usamos muito. Outra coisa: sempre que ele recebia um dinheirinho, dizia que era pra gente comprar pó de arroz e bolsa porque “uma mocinha não pode sair desarrumada e sem bolsa”. Aí, até hoje, às vezes eu tô aqui e penso: “Só vou ali perto rápido, vou sem bolsa”. Mas me lembro dele falando isso pra gente, da postura de uma moça, então pego a minha bolsa e saio – Vera relembra.

Cada um deles tem sua predileção quando o assunto são os sambas do pai. O preferido de José Mário é “Glórias e Graças da Bahia” (Silas e Joacir Santana), de 66. Ele começa a cantar:

– “Oh! Como é tão sublime / Falar das suas glórias / E dos seus costumes, formosa Bahia / Catedrais ornadas de encantos mil / Do Candomblé, da famosa magia”… Isso é lindo – vibra.

Junior de Oliveira, o neto percussionista que aos 39 anos é o único da família a ganhar a vida no meio do samba, elege “Cinco Bailes Tradicionais da História do Rio”, de 65 (parceria de Silas com Bacalhau e Dona Ivone Lara).

Vera prefere “Heróis da Liberdade” (dele com Mano Décio e Manuel Ferreira), de 69. Já Elenice escolhe “Apoteose ao Samba”, samba que não é de enredo – diferentemente do que alguns podem pensar, Silas também fazia lindos sambas fora do gênero, caso de obras-primas como “Amor Aventureiro”, “Meu Drama” (que muitos conhecem nas rodas de samba como “Senhora Tentação”) e esse “Apoteose ao Samba”.

Silas com a família– Os sambas-enredo dele deixam a gente muito contente, a gente viaja quando canta. Mas eu acho que “Apoteose ao Samba” é o papai se declarando para o samba, entendeu? Quando eu ouço, quando eu canto, eu vejo ele cantando – explica Elenice, antes de cantarolar um trecho, acompanhada por José Mário (“Samba / Quando vens aos meus ouvidos / Embriagas meus sentidos / Trazes inspiração / A dolência que possuis na estrutura / É uma sedução / Vai alegrar o coração daquela criatura / Que, com certeza, está sofrendo de paixão”).

Preferências à parte, todos afirmam amar, é claro, “Aquarela Brasileira”, o samba mais conhecido do pai. Mas a reedição do enredo com o clássico de Silas de Oliveira, em 2004 (40 anos depois do desfile original), não veio sem alguma agonia para a família, que só não guarda mágoa maior com a escola do coração porque tudo acabou sendo resolvido a tempo.

– O anúncio para a imprensa de que “Aquarela” seria reeditado ia ser numa churrascaria de luxo lá na Barra da Tijuca. A gente, da família, não ganhou um convite sequer, não chamaram nem a minha mãe, que ainda era viva. Aí, quase na hora, eu liguei pra Rachel [Valença, pesquisadora e grande imperiana] e pedi ajuda. Ela ligou pra quadra e falou com a presidente na época [Neide Dominicina Coimbra, já falecida]. Então, a Neide disse que a gente podia ir, que haveria um ônibus saindo da porta da escola. Só fui eu com uma amiga. Logo depois que chegamos à churrascaria, tomei um susto quando vi a minha mãe chegando. E sabe por que ela foi? Só porque a TV Globo, que ficou sabendo que a viúva do Silas de Oliveira não tinha sido convidada, queria fazer a reportagem e mandou um carro buscar mamãe e a Dona Eulália e as levou até lá – relata Elenice.

Ela mesmo conta como terminou essa história:

– Depois, tudo ia correndo bem, os ensaios ficavam superlotados porque o que samba era muito conhecido, tudo ómo. A não ser pelo fato de que a escola só procurou a gente, para tratar do desfile e definir como nós sairíamos, quando o Carnaval já estava em cima. Aí foi feita uma lista e nós, filhos, netos e familiares saímos num carro alegórico. Foi lindo, porque apesar dos pesares nós somos imperianos, né? A gente esquece essas tristezas quando chega lá e vive Silas de Oliveira de novo, dentro do nosso Império Serrano…

Família - inauguração busto no ImpérioVera comenta:

– Tem esse problema, sabe? Silas de Oliveira é o maior sucesso, mas às vezes falta o reconhecimento. Eles ficam com a obra, entendeu?

A tristeza maior que os filhos sentem até hoje foi causada pelo episódio da escolha do samba da escola para o Carnaval de 1972. O de Silas perdeu por 5×0 e o compositor ficou magoado e muito triste com o seu Império – tristeza que, para a família, teve influência na morte dele, de infarte, meses depois, em 20 de maio daquele mesmo ano. Eram novos tempos e começava a era dos sambas mais curtos e acelerados. Na verdade, eles se ressentem pela forma como tudo aconteceu.

– O samba dele não passou nem da fita – diz Vera, referindo-se à etapa inicial de escolha do samba-enredo à época, quando a gravação era ouvida por uma comissão da escola para a primeira triagem dos concorrentes, antes de os sambas serem defendidos na quadra.

Ela conta que o pai não quis desfilar na escola. E que a mão amiga foi estendida por uma agremiação coirmã, a Imperatriz Leopoldinense. O patrono da escola, Luizinho Drumond, mandou fazer uma roupa especial para Silas e o convidou para sair na escola de Ramos.

– No dia, papai chegou a se vestir e foi pra Avenida. Mas quando chegou na concentração e viu o Império se preparando, chorou muito e não conseguiu sair por outra escola. Ficou lá, sentado na calçada vendo a sua escola entrar. Não saiu no Império, mas não saiu em nenhuma outra – Vera conta.

Mesmo com as tristezas do caminho, o orgulho e o amor que a família sente por Silas de Oliveira, o compositor e o pai, são imensos – e isso é visível para quem tem a chance de conviver com eles, seja por algumas horas numa tarde qualquer de outono no Rio de Janeiro. Também é gigantesco o amor que eles sentem pelo Império Serrano. É Elenice quem explica:

– A gente tem um amor muito grande pela escola. Muito grande mesmo. Eu vou te confessar (a voz embarga e ela chora um pouco) que agora, nos 70 anos do Império, eu cheguei na quadra [para a solenidade do último dia 23 de março] e consegui me emocionar igual estou me emocionando aqui. Eu pensei: “Caramba, 70 anos de Império. Dos 62 que eu tenho de vida, são 62 anos de Império”. Entendeu? Porque a minha mãe defendia os sambas do meu pai na quadra, costurava fantasias, ia pra lá comigo (e com as minhas irmãs) desde que a gente estava na barriga dela, sabe? Então, a gente sente esse amor muito grande, imenso…

Assista ao herdeiros de Silas de Oliveira cantando sambas clássicos

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