Samba Meu
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Arcanjo da Mangueira

1 de junho de 2017
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Arcanjo da Mangueira

EDUARDO CARVALHO

eduardo-carvalhoUm menino da Mangueira / Recebeu pelo Natal / Um pandeiro e uma cuíca / Que lhe deu Papai Noel / Um mulato sarará / Primo-irmão de Dona Zica / Foi correndo organizar / Uma linda bateria / Carnaval já vem chegando / E tem gente batucando / São meninos da mangueira(…)”
(‘Os Meninos da Mangueira’ – Rildo Hora e Sérgio Cabral)

A antiga vila continua viva na Rua Visconde de Niterói, 298. Nos últimos 55 anos, quase tudo mudou no entorno dela. Menos a forte influência social e cultural, sobre quem mora ou morou ali, exercida por sua vizinha mais ilustre: a Estação Primeira de Mangueira.

Não foi diferente com o gaúcho Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento. O futuro jornalista Tim Lopes – cuja morte completa 15 anos neste 2 de junho – era ainda um moleque de calça curta quando chegou, vindo da cidade de Campo Grande (MS), para viver na casa de número 15 dessa vila. O ano era 1962 e ele tinha 11 anos (quase 12). Lá morou, com pai, mãe e oito irmãos, até o fim da adolescência. E lá se apaixonou, para sempre, pelas coisas do samba e do Carnaval.

Por toda a vida, Tim Lopes foi um menino da Mangueira. “Ele era o Arcanjo da Mangueira, que vestia a camisa da escola com orgulho e paixão”, escreveu certa vez o seu único filho, o também jornalista Bruno Quintella.
Miro Lopes, o Tio Miro, o irmão que até hoje vive na mesma vila, só que na casa 4, disse-me assim:

– Toda a ligação muito bonita do Tim com o universo do samba veio dali, da convivência dele na Mangueira, desde pequeno.

O menino Tim da Mangueira cresceu com o Carnaval no sangue. Frequentava a quadra e desfilava na escola, saía na Banda de Ipanema, no Simpatia é Quase Amor (bloco que praticamente ajudou a fundar), no Bola Preta – no ano em que seria morto, brincou seu último Carnaval no Bola, feliz da vida, vestindo a camisa do seu Vasco da Gama.

Fora do Reinado de Momo, o samba continuava a correr nas veias do eterno menino Arcanjo. Ouvia muito Cartola, Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, Paulinho da Viola – vascaíno como ele, a quem considerava o seu “Camisa 10” –, João Nogueira:

“Eu sou é madeira / Em samba de roda já dei muito nó / Em roda de samba sou considerado / De chinelo novo brinquei Carnaval, Carnaval / Eu sou é madeira / Meu peito é do povo, do samba e da gente (…)”.

– “Nó na Madeira, essa é minha música!”, meu pai me dizia… – contou-me Bruno por esses dias, lembrando de Tim ouvindo os sambas do João numa fita cassete.

Do curto período em que convivi profissionalmente com o Tim, seu último ano de vida, guardo na lembrança os olhos vivos de menino que ele tinha. Acho que o repórter Tim sempre carregou o pequeno Arcanjo que ele fora um dia.
Dito de outro jeito: na profissão que desempenhou com brilhantismo, ele nunca deixou de ser aquele menino da Mangueira. E só por isso conseguiu enxergar e denunciar as mais variadas violências sofridas, sobretudo, por miseráveis, explorados, excluídos e desamparados de toda sorte – no fundo, seus velhos conhecidos da Visconde de Niterói e adjacências.

Para contar no “Jornal do Brasil” como sobreviviam os moradores de rua, Tim passou um tempo com eles, sendo um deles. Nos jornais “O Repórter” e “O Dia”, durante dias foi um operário das obras da Linha 2 do metrô carioca e da Linha Vermelha para descrever as condições precárias a que eram submetidos esses trabalhadores.

No “Jornal Nacional”, fingiu ser viciado em drogas e se internou numa clínica de reabilitação para dependentes químicos – pobres! Depois, revelou o feirão da venda de drogas no Complexo do Alemão e a impotência daqueles moradores – humildes! – no seu ir e vir diário contra o poder paralelo armado. No “Fantástico”, vestiu-se de Papai Noel e saiu por aí perguntando a crianças – miseráveis! – quais eram os seus sonhos…

Há 15 anos, Tim foi capturado, brutalmente torturado e assassinado, enquanto fazia mais uma reportagem para denunciar, sempre vivenciando de dentro para fora, como pessoas – em sua maioria jovens favelados, excluídos pela desigualdade político-econômica nossa de cada dia – eram subjugadas por bandidos como os que o matariam. Em toda a sua vida profissional, ele viveu para tentar mudar a realidade de trabalhadores explorados, prostitutas, meninos de rua, presidiários, drogados, moradores das favelas. Ele também morreu por essa gente.

Nesse hoje que já dura uma década e meia, eu quero apenas dedicar a ele, o Arcanjo-menino da Mangueira, e ao seu filho Bruno, meu muito querido amigo de todas as horas, estes versos do samba “Cachaça, Árvore e Bandeira”, homenagem de Moacyr Luz e Aldir Blanc ao mito mangueirense Carlos Cachaça:

“E é tão bonito / Ver um sambista transformar-se em dança / De ramos verdes onde o vento e a sombra / Transmitem aos filhos sua herança”.

Tim vive. Viva Tim.

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