Samba Meu
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Cadê Ioiô, Dona Fia?

11 de maio de 2017
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Cadê Ioiô, Dona Fia?

EDUARDO CARVALHO

eduardo-carvalhoSe você não ama incondicionalmente a música de Almir de Souza Serra, o Almir Guineto, deve ser porque não conhece bem a obra dele. Acontece. Mas não perca mais tempo. Corra atrás. Agora. E você não terá como não amar os sambas de Almir, sua voz, seu ritmo, sua arte. Incondicionalmente.

Dos vários talentos de Guineto, escolho um: o de cantar. Isso mesmo. Deixo de lado o compositor “cronista-social” incrível que ele é, o batuqueiro que aprendeu a tocar todos os instrumentos de percussão no morro do Salgueiro e foi diretor de bateria da escola por 15 anos, o integrante dos Originais do Samba (que fez enorme sucesso na década de 70 do século passado), o inventor do banjo com a afinação de cavaquinho (e tudo o que esse instrumento trouxe para mudar o jeito de se fazer e tocar samba), o partideiro brilhante na hora de versar de improviso. É que poucos artistas me tocam tanto no jeito de cantar, mais do que isso, na maneira de “levar” uma música do que Almir Guineto.

Ele nunca teve voz de grande cantor. Sua emissão vocal está mais para rouca do que para grave. E, muitas vezes, a gente nem consegue entender direito uma ou outra sílaba cantada por ele. Mas não, você não leu errado. Almir sempre cantou – canta, a sua voz é imortal – com tudo o que tinha acumulado dentro de si ao longo de uma vida que teve festa e dissabor, agrura e poesia: a bebida, a dor, o excesso, a falta, o amor e o desamor. É pura beleza a sua voz rasgada, machucada de vida, aquela voz de quinta dose.

Ouça as canções que ele gravou, próprias ou de outros – mas vá além dos sucessos fáceis, tipo “Conselho”, “Insensato Destino”, “Mel na Boca” e “Caxambu”, por exemplo. Repare, também, na forma como ele divide a música. Sempre o considerei uma espécie de “João Gilberto do samba”. Explico: é brilhante como Guineto brinca o tempo todo com o tempo da canção. Ele atrasa e adianta a letra em cima da melodia e do ritmo como bem entende, num cantar único que você não quer parar de ouvir nunca mais. Essa é, na minha opinião, a sua mais bela marca.

Zeca Pagodinho, que aprendeu muito com ele e de quem Guineto era muito amigo desde os tempos de dureza (“no tempo em que a banana ainda estava comendo o macaco”, como disse Almir uma vez), também faz essa “dança” com a letra sobre a melodia. Mas não alcança a perfeição, o sublime, como faz Almir. E como fez/faz João Gilberto.

Aliás, essa levada que ele tinha desde que começou a cantar tem tudo a ver com a sua famosa criação. Nos anos 1970, Almir Guineto frequentava a quadra do Cacique de Ramos, na Rua Uranos, onde toda quarta-feira tinha “uma comida, futebol, carteado e uma roda de samba que ia até de manhã”. Ali, como se sabe, havia uma turma de compositores e músicos absolutamente maravilhosos e, também, anônimos: Jorge Aragão, Sombrinha, Neoci, Bira Presidente, Ubirany, Sereno; depois Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila, Zeca Pagodinho e muitos outros que na época nem sonhavam com o sucesso. Como os instrumentos não eram microfonados, Almir achava que o som do cavaquinho era baixo e também que as cordas arrebentavam com muita frequência. Então, levou para lá o instrumento que havia criado, inventado mesmo: uma versão reduzida daquele banjo que acompanhava o foxtrote e outros ritmos norte-americanos.

O banjo de Almir tinha um braço menor e apenas quatro cordas, com afinação de cavaquinho. Mas não era só isso. Ele tocava aquele novo instrumento com uma batida rápida e “suingada” da palheta nas cordas, fazendo-as tremular no mesmo ritmo e na mesma “pegada” dos elementos de percussão que também eram novos naquela que foi a mãe das rodas de samba, o repique de mão (invenção de Ubirany) e o tantã – criação de Sereno (primo dos irmãos Bira e Ubirany e também fundador do Cacique e do Fundo de Quintal) a partir de uma adaptação do atabaque. Pronto. Almir, sem exagero, ajudava assim a revolucionar o samba e a moldá-lo como o conhecemos hoje.

Talvez a grande Beth Carvalho tenha sido quem mais gravou Almir Guineto. Muitos outros também o fizeram, entre eles a cantora Dorina, que há alguns anos lançou um disco primoroso só com músicas dele. Mas, para entender mesmo Almir Guineto, é preciso ouvi-lo por ele próprio.

“Dona Fia, cadê Ioiô? / Cadê Ioiô, Dona Fia, cadê Ioiô? / Cadê, cadê, cadê Ioiô? / cadê, cadê, cadê Ioiô?”, pergunta o compositor salgueirense Cezar Veneno no samba que compôs há muitos anos, já gravado pelo Fundo de Quintal e cantado há décadas em pagodes pelo Brasil afora. Compre CDs, long-plays ou baixe no telefone celular. E beba, no gargalo, Almir Guineto, rebento do morro do Salgueiro, filho do violonista Iraci de Souza Serra e de Nair de Souza, a Dona Fia, costureira da escola de samba vermelha e branca da Tijuca. Só assim você encontrará o “Ioiô” Almir Guineto. E vai amá-lo. Incondicionalmente.

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