Samba Meu
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Clementina, cadê você?

9 de fevereiro de 2017
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Clementina, cadê você?

EDUARDO CARVALHO 

eduardo-carvalho“Um partido alto característico de Elton Medeiros, com um refrão e as demais estrofes soladas por cada um dos sambistas, pontuava o momento e incendiava o teatro (…). ‘Clementina, cadê você? / Cadê você? Cadê você?’ (…). Finalizado o partido, o palco escurecia, o ambiente se inundava do som dos atabaques e do rufar dos tambores e um facho de luz acompanhava a entrada da figura idosa, senhora negra em belas vestes brancas (…). ‘Benguelê, Benguelê / Benguelê, ó mamãe Simba, benguelê’. A plateia aplaudia euforicamente (…) em cena aberta. Ela respondia pressionando as mãos palma com palma, saudando o público, um gestual que incorporou dos terreiros de candomblé. Ovacionada, andava pelo palco quase sapateando, exercendo um fascínio praticamente sobrenatural sobre os espectadores. ‘O público literalmente enlouqueceu’, relembrou Hermínio [Bello de Carvalho] sobre aquela estreia (…). ‘Aquele foi um momento mágico’, pontuou Paulinho da Viola”.

O trecho acima é só um resumo da descrição da entrada de Clementina de Jesus no palco do Teatro Jovem, que encantou até poste na estreia do mitológico show Rosa de Ouro (do qual ela fazia parte e que contava ainda com Anescar do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Elton Medeiros, Paulinho da Viola e Araci Cortes), em 1965. E ele é apenas parte de uma das muitas e muitas histórias incrivelmente ricas em detalhes, bem contadas e bem escritas de “Quelé, a voz da cor”, a maravilhosa biografia de Clementina de Jesus que acabou de sair.

O livro, escrito por quatro jovens jornalistas de São Paulo, é o mais potente e abrangente relato histórico da vida, da obra e do significado cultural para o Brasil da existência dessa cantora que começou a carreira aos 65 anos, após ser descoberta pelo poeta, produtor musical e compositor Hermínio Bello de Carvalho na Taberna da Glória, na década de 60. Janaína Marquesini, Luana Costa, Raquel Munhoz e Felipe Castro mergulharam fundo na trajetória e em todas as nuances e facetas de Clementina. E, depois de seis anos de intensa, extensa e arguta pesquisa, eles agora emergem com uma obra bela, maiúscula e gostosa de ler.

Trata-se de um registro fundamental para o samba – maior representante da grande música brasileira de raízes africanas. Mas é também leitura obrigatória e essencial para sabermos mais sobre quem nós somos, de onde viemos e qual é a matriz cultural riquíssima e pouco valorizada que nos define como povo.

Da Clementina que aprendeu cantigas imemoriais escutando a mãe cantarolar enquanto lavava roupa num riacho perto da casa onde nasceu em Valença, Sul do estado do Rio, à deusa negra que arrebatou o Festival de Cinema de Cannes, encantou Paris e a França, está tudo lá. Também estão no livro as festas de Nossa Senhora da Glória e da Penha, eventos culturais populares que arrastavam multidões no Rio e onde o samba e os ritmos afros comiam solto, e a convivência com gigantes como Paulo da Portela, João da Baiana, Ismael Silva, Candeia, Elizeth Cardoso, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Cartola, e os então novatos Paulinho e Elton Medeiros (entre tantos e tantos outros). A leitura desse generoso livro faz com que grandes momentos do samba, do Carnaval e da música popular brasileira no século XX desfilem na frente dos olhos da gente: os passos iniciais do que viriam a ser as primeiras escolas de samba, Donga e Pixinguinha começando, as reuniões na casa de Tia Ciata na velha Praça 11, a Mangueira quando tinha acabado de ser fundada, a época em que Clementina desfilava num corso de Carnaval com Noel Rosa, o mítico bar Zicartola, o marco que foi o show Rosa de Ouro, o Teatro Opinião… É um Rio de Janeiro de amor que se perdeu, cheio de personagens reais que criaram a magia de uma cidade, os alicerces de uma cultura e de uma música – a brasileira, nascida do choro, do samba e dos ritmos africanos – que figura entre as três mais ricas do mundo (lado a lado com o jazz norte-americano e com a música cubana, na minha opinião).

A história e as histórias de Quelé são contadas a partir de uma profusão de entrevistas recentes, depoimentos antigos gravados em vídeo, documentos, dezenas de livros e farto material da imprensa em diversos momentos e diferentes décadas do século passado. O talento e o esforço admirável desses autores sem grife (ainda bem!) resultaram em um trabalho sério, objetivo, bonito e sem firula – mas com charme. No meu ponto de vista, é uma aula de como se biografa um personagem tão rico e tão importante sem querer brilhar mais do que o biografado.

Descendente de escravos do ciclo do café, Clementina foi a voz e a grande memória que nos possibilitou conhecer hoje muito da musicalidade dos nossos ancestrais. Ela personificou, para um país inteiro (ainda que grande parte dele lhe seja ingrato ou mesmo a desconheça), a mãe negra que transmitiu, pela tradição oral, o saber atávico de uma das culturas centrais do nosso “ser brasileiro”, que é a africana.

A leitura de “Quelé, a voz da cor” serve, enfim, de reflexão para tudo, inclusive para mais um Carnaval meio sem alma que vem por aí. Eu, se fosse você, corria agora para os braços de Clementina de Jesus. Lá, no embalo da voz e da verdade sem máscara nem estrelismo de Quelé, a nossa Rainha Ginga, ainda sobrevive um Brasil cheio de talento, mais misturado, menos desigual.

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