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Confira sinopse do Parque Curicica

24 de maio de 2013
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Confira sinopse do Parque Curicica

A União do Parque Curicica entregou na noite desta quinta-feira (23) a sinopse do seu enredo 2014. O encontro que contou com aproximadamente 250 presentes marcou o início da trajetória da confecção dos sambas que a escola escolherá para ser o hino do seu desfile do Carnaval 2014.

O carnavalesco Mauro Quintaes em sua explanação sobre o tema pediu aos compositores um samba descritivo e sequencial.

– Queremos um samba que tenha um bom retorno do publico e que quem esteja lá assistindo possa ver e ouvir nosso desfile como se fosse um filme legendado. Nossa sinopse é descontraída e assim será o nosso desfile. Solto e brincalhão como um embriagado.

O carnavalesco e o diretor de carnaval estarão à disposição dos compositores para prestar esclarecimentos e dirimir quaisquer dúvidas sobre o enredo no barracão situado na Rua Almirante Mariath, 06, São Cristóvão (onde funcionava o barracão da GRESE Império da Tijuca), em duas datas: 6 e 27 de junho das 18 às 21.00 horas.

A apresentação dos sambas concorrentes ocorrerá em 1º de agosto e a grande final será no dia 26 de setembro.

Confira a sinopse:

 Na Garrafa, no Barril, Salve a Cachaça! – Patrimônio Cultural do Brasil

 

Ela está nas mesas, nos bares e no coração do Brasil. Tem selo verde e amarelo de autenticidade e é uma grande paixão nacional. Passou por transformações, numa espécie de alquimia tupiniquim: era doce e virou aguardente. Era verde e virou ouro. Era história… e virou samba!

É o combustível para muitas inspirações. Por isso, puxe um banco, erga um copo e venha molhar a palavra, porque hoje é carnaval!

Primeiro Gole – “Pinga ni mim”

Os portugueses haviam recém-chegado ao Brasil e descobriram uma engenhosa forma de nos explorar. Com a cana em alta cotação na Europa, faltavam terras para plantar e mãos para colher. A partir da chegada de Cabral e com o crescente comércio de escravos com a África, dois problemas foram resolvidos com uma só talagada.

A cana transformou as terras do litoral brasileiro, especialmente no Nordeste, em um imenso mar verde, que farfalhava ao sabor do vento. Até que um dia a garapa armazenada nos tachos fermentou. E dos alambiques pingou, sobre as feridas do escravo que tinha a pele negra aberta a chicotadas nas lavouras. Primeiro, a água ardeu. Depois, a bebida passou a amenizar o sofrimento na senzala.

As moendas giravam, a economia também. E o açúcar, de doce, passou a ser aguardente… que virou feitiçaria! Foi assim, na lábia, que Bartolomeu Bueno da Silva, mais conhecido como Anhanguera ou Diabo Velho, mandou um “171”pra cima dos índios. Acuado, disse ser o deus do fogo e ameaçou incendiar os rios da região. Na verdade, as chamas que encandearam o olhar incrédulo dos nativos queimavam pela ação da cachaça. Com o truque, o bravo bandeirante perdeu uma garrafa do precioso líquido, mas fez novas amizades. Tudo bem que à base de medo, intimidação e um pouco de superstição, mas e daí? Não se faz amigos bebendo leite, certo?

Segundo Gole – “Glória à Cachaça… e a todas as lutas inglórias”

Mais tarde, Portugal viu cambalear a cultura da cana-de-açúcar, que os holandeses espertamente foram plantar nas Antilhas. A Coroa resolveu, então, aumentar os impostos sobre a cachaça, que àquela altura era exportada para Angola, rendendo bons lucros aos senhores de engenho. Produtores do Rio de Janeiro e da região da antiga Freguesia de São Gonçalo do Amarante (em cujas terras hoje ficam os municípios de Niterói e São Gonçalo) se rebelaram contra a taxa. Surgia assim a Revolta da Cachaça.

Sai a cana, entra a mineração. A história você já conhece… poucos ganham, muitos trabalham e assim seguia a vida na Colônia. Mas nas alterosas montanhas de Minas Gerais, o frio era de matar. E mais uma vez os escravos entraram numa gelada. Nas minas de ouro, para se manterem aquecidos, os negros escravizados entornavam mais e mais a aguardente. Parece até sacrilégio dizer isso, mas é a pura verdade: o luxo das igrejas barrocas banhadas a ouro deve muito da ostentação à “marvada” pinga.

Ainda em Minas, alguns inconformados com a alta tributação da coroa portuguesa tramavam em segredo outra revolta. Os Inconfidentes não dispensavam uma boa cana e brindavam ao sucesso da ousada empreitada. Mas no final o que ficou foi uma tremenda ressaca: Tiradentes foi enforcado, muitos presos e a Coroa… bem, essa só foi perder a boquinha anos e anos depois com a Independência proclamada por Dom Pedro I, que, dizem, ergueu um brinde à nova nação com uma boa e velha pinga!

Terceiro Gole – Vai uma pro santo?

Se a cachaça tem lugar cativo na história, também marca presença na fé do brasileiro. Ela é combustível desse sentimento, dessa nossa força tão peculiar. Tanto que ganhou uma dose a mais de identidade verde e amarela com oferendas para santos de diversas crenças e de diversas origens.

Nas religiões afro-brasileiras, Exu, o mensageiro entre o céu e a Terra, é saudado com marafo, que nada mais é que a boa e velha cachaça.  Ali, na aguardente, estão perfeitamente unidos em uma só bebida dois elementos fundamentais e opostos: a água e o fogo. Os trabalhos ritualísticos feitos pelos sábios Pretos Velhos também têm na bebida um elo com os espíritos. E de gole em gole, são tecidos os laços com a nossa ancestralidade.

Mas não é só nos terreiros dessa imensa nação que a cachaça tem ligação com o sagrado. Nas trovas populares, São Benedito é saudado como o “santo preto / que bebe cachaça / e ronca no peito”. E assim é o Brasil. Uma nação fundada na fé de um povo que ao beber, não se furta a destinar um golinho pro santo. Seja qual for a devoção.

Quarto Gole – “Você pensa que cachaça é água?”

Simbora, meu povo, que (o que repetido) hoje é noite de festa! Não vai faltar quentão pra esquentar a louvação a Santo Antônio, São João e São Pedro. E dessa água pode até ser que passarinho não beba, mas lá em Paraty ela anima os violeiros e faz a alegria na Festa do Divino.  E já que o brasileiro é chegado a uma mistura, nada melhor do que fazer do limão da vida, uma limonada. Melhor ainda: que tal adicionar um pouquinho de cachaça e fazer uma caipirinha?

Agora, pra encerrar o papo, só mais golinho, porque, afinal, na festa de Momo, a branquinha é a tal. Folião que é folião já pulou no salão cantando o que lhe é essencial nesses quatro dias de loucura: “pode me faltar o amor / isso até eu acho graça / só não quero que me falte / a danada da cachaça”.

Mauro Quintaes

Carnavalesco

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