Samba Meu
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Da 1° de Março, falta um passo

30 de março de 2017
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Da 1° de Março, falta um passo

EDUARDO CARVALHO

eduardo-carvalhoPra Ouvidor – foi o que eu disse ao motorista de táxi, naquele sábado hoje perdido no tempo.

– O que tem lá, mestre? – perguntou-me.

– Tem samba, amigo!

– Ah…

Lembrei-me desse diálogo noutro dia, quando a saudade – sempre no comando do meu enredo – me atirou de volta a coloridas tardes, quando a gente voltara a achar que o Rio ainda tinha jeito. Isso deve ter quase 10 anos, quando a roda de samba na Rua do Ouvidor engatinhava e iluminava a vida da gente. Eram tantos amigos, tantos encontros e reencontros…

Nada a ver com a grande festa que hoje, em esporádicos sábados, chega a reunir quase duas mil pessoas na esquina com a Rua do Mercado. Continua sendo bonito o samba cantado pela turma do Samba da Ouvidor, à frente o imenso talento de Gabriel Cavalcante. Mas acontece que, naquele tempo, o samba era menor, mais aconchegante e, de fato, cantado e tocado na Ouvidor, em frente à indispensável Livraria e Edições Folha Seca – firme e forte por lá, tendo as coisas do Rio como especialidade e a fidalguia do Rodrigo Ferrari como cartão de visitas.

Hoje, volta e meia, ainda rolam uns batuques ali. O mais recente foi por ocasião do lançamento de “Uma História do Samba: As Origens”, primeiro livro da trilogia do escritor Lira Neto sobre a história do mais brasileiro dos ritmos. Antes um pouco, tinha sido a vez de “Quelé, a Voz da Cor”, biografia de Clementina de Jesus, lançado com samba junto com “Ferrugem”, novo livro do escritor carioca (e imperiano de fé) Marcelo Moutinho. Entre um e outro, o cronista Xico Sá também autografou lá a sua obra mais recente, “A Pátria em Sandálias da Humildade”.

Nessas ocasiões, e também em datas como o aniversário da cidade ou o dia do seu padroeiro, São Sebastião, a velha rua se enche de alegria e faz brotar por algumas horas na gente o aconchego que o Rio sabe dar como nenhuma outra cidade. Em momentos assim, continua sendo comovente ver as pessoas curtindo a rua como se fosse a extensão de suas casas, de seus bairros.

Com o detalhe fundamental de que aquele pedaço de Centro, a Rua do Ouvidor, ainda guarda, no seu dia a dia cheio de vai-e-vem, a vida de verdade. Não é para turista ver. Naquele sábado lá do começo do texto eu conversava sobre isso com um querido amigo, Anézio Caetano, professor de História e carioca maiúsculo. Embevecidos com a seleção de sambas musicando a nossa tarde (Mangueira, Salgueiro, Império e Portela de antigamente, e mais Paulinho, Cartola, Silas de Oliveira, Candeia etc. etc.), concluímos que a Ouvidor – como boa parte do Rio Antigo – era mais bonita e mais viva do que o Pelourinho, em Salvador. E justamente pelo fato de não ser apenas uma atração turística fechada em si mesmo.

Lembro-me de ter olhado então para o casario belíssimo e, com o samba se acomodando alma adentro, ter agradecido a tudo quanto era santo e pedido para que cada minuto daquele sábado durasse um pouquinho mais. Não deu, não deu…
Mas isso foi há muito tempo, em plena Ouvidor, “A velha rua que não esqueci”. Na volta para casa, aquele samba do Salgueiro de 1991 rodopiava sem parar na minha cabeça. Embaralhado, ele fazia ainda mais sentido. E, nas minhas palavras mudas, ele ficou assim: só agora entendo o teu papel, Ouvidor; no (meu) samba ainda faltava esse traço…de amor!

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