Coluna Anderson Baltar
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Divagações sobre o verdadeiro sentido da censura

27 de agosto de 2012
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ANDERSON BALTAR

Em tempos de redes sociais e em que as pessoas passam o tempo todo conectadas, a informação circula livremente. Não temos mais fontes únicas – tudo que chega ao nosso conhecimento é mediado por várias pessoas. Pode ser pelo consumidor que denunciou a pauta, pelo blogueiro que faz a matéria à parte da grande imprensa e até pelo repórter, que checou sua informação de várias formas – muitas virtuais. Tudo que é publicado hoje é comentado, debatido, retwittado, curtido e compartilhado. Portanto, formas arcaicas de se disseminar a notícia não cabem mais. Não existe mais a verdade absoluta, muito menos a mistificação tão própria dos meios de comunicação. Só acredita quem quer.

O manifesto “Nossa avenida vai além do carnaval”, do qual muito me orgulho de ser um dos formuladores e signatários, e encampado pelo candidato a prefeito Marcelo Freixo (PSOL) acabou por ter uma mídia totalmente inesperada por conta da formulação de uma pergunta durante a entrevista concedida pelo político ao RJTV 2ª Edição. O que julgávamos ter repercussão apenas no mundo do carnaval se tornou conversa em toda a cidade.

Louvo muito este debate. Sempre me incomodou o fato de que carnaval não fosse tema de campanha eleitoral. Sempre procurei o motivo para entender o porquê de todos os candidatos a prefeito nunca se preocuparem com o tema, que marca a imagem da cidade em todo o mundo e movimenta milhões de reais, aquecendo a economia por, pelo menos, quatro meses do ano. A postura corajosa do candidato, que deixou até o apresentador Márcio Gomes desconcertado, serviu para mostrar para toda a cidade que, sim, carnaval é coisa séria e precisa ser debatida.

Aí eu volto ao princípio deste artigo. É, no mínimo, inocência, acreditar na primeira versão que chega aos ouvidos sem ao menos se dar ao trabalho de checar. Vi muita gente boa dizendo que a proposta do manifesto é a volta da censura. Gente que fala sem saber, que acredita em mistificações e sequer se dá ao trabalho de dar uma “googleada” para saber do que acontece. Muitas pessoas agem por credulidade. Outras, por conveniência. Todos formam uma massa de manobra muito cara aos poderosos.

Então vamos lá tentar definir o que é censura. Censura seria o poder público tentar estabelecer critérios para que o seu, o meu, o nosso dinheiro seja utilizado de uma forma condizente? Censura é pedir prestação de contas? Ou o governo tem apenas que destinar R$ 1 milhão por ano para eventos fictícios, em que palestrantes falam para as paredes e rodas de capoeira se apresentam para ninguém? É certo doar dinheiro para quem vai fazer enredo bancado e transformar escolas pequenas em bloco na base da canetada?

Outros questionamentos: a Liesa não tinha transformado as escolas de samba em entidades auto-suficientes? Por que essa preocupação tão grande com a suposta falta de dinheiro público? Por que os patrocinadores de enredos ainda têm direito a captação em Lei Rouanet para abater impostos em ações meramente marketeiras?

Continuo pensando e outros questionamentos se tornam mais necessários ainda. Tem moral para falar em censura quem persegue e afasta diretores de escola por simplesmente pensar diferente? Por que tanta subserviência ao prefeito, quando o nome dele sequer é citado no documento e ele sequer o comentou em público? Os senhores da folia não repararam que o nosso alcaide anda calado demais sobre o assunto? A confiança destes homens (e mulheres) no prefeito é tão cega que justifica comícios em quadra e esdrúxulas mudanças de nomes de agremiações sexagenárias? É justificado desqualificar, em redes sociais, pessoas que pensam diferente, fazendo escárnio de suas trajetórias ou querendo-as colocar em molho de cachorro-quente?

Perdoai. Eles não sabem o que fazem.

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