Terreiro do Simas
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A lição de Cartola

1 de fevereiro de 2017
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A lição de Cartola

LUIZ ANTONIO SIMAS

luiz-antonio-simasO mundo das escolas de samba não é afeito ao contraditório. Detesta, aliás. Quaisquer críticas, mesmo as mais fundamentadas, são normalmente encaradas como ofensas pessoais, o que só atrapalha o desenvolvimento das próprias agremiações e as discussões dinâmicas sobre a festa. Exceções louváveis confirmam a regra.

Acompanhando as redes sociais sobre as polêmicas que envolveram os ensaios da Beija-Flor e da Grande Rio, reparo que o comportamento mais frequente entre a turma que confunde divergência com ofensa é o da pura e simples desqualificação do divergente com o mais simplório e arrogante dos argumentos: quem pensa de forma diferente não entende nada. Estamos conversados.

Tudo que é suscetível a debates pressupõe, inicialmente, disposição para escutar respeitosamente aquilo que, a princípio, não corrobora com a nossa opinião sobre determinado assunto. Uma boa mesa de debates, um bom time de analistas, é aquela composta por pessoas com pontos de vista ocasionalmente concordantes, frequentemente divergentes, mas sempre fundamentados. E, sobretudo, com gente disposta a abrir mão da vaidade das certezas e mudar de opinião diante de argumentos que pareçam mais convincentes.

A gente que trabalha e tenta falar de Carnaval tem que ter a compreensão de que nossa função não é a de exercer o que chamo de “redundância confirmativa” (a insistência superlativa em ideias fixas que evitem o confronto e agradem as expectativas pré-concebidas daqueles que nos leem, escutam, etc.). Estamos ali para expor impressões sujeitas a ponderações que permitam um diálogo fecundo entre divergentes.

Em certa feita, Herivelto Martins fez um samba com Grande Otelo (Silenciar a Mangueira), que diz o seguinte:

Acabaram com a Praça Onze!
Demoliram praças e ruas, eu sei
Podem até acabar com o Estácio
O velho Estácio de Sá!
Derrubem todos os morros
Derrubem meu barracão
Silenciar a Mangueira, não!

O mangueirense Cartola achou que o samba, ao defender a Mangueira, era injusto com o velho Estácio e escreveu uma resposta ao samba de Herivelto:

Silenciar a Mangueira, não
Disse alguém
Uma andorinha só não faz verão também.
Devemos ter adversários como Oswaldo Cruz
Diz o provérbio “da discussão é que nasce a luz”
Uma escola que não devia acabar
Era o velho Estácio de Sá.

Cartola, ao admitir que da discussão é que nasce a luz e que não adianta existir a Mangueira se não houver o Estácio, deu a pista pra nossa turma do samba.

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