Terreiro do Simas
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Luciano Huck e o dilema das escolas de samba: não me amarra dinheiro não

10 de maio de 2017
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Luciano Huck e o dilema das escolas de samba: não me amarra dinheiro não

LUIZ ANTONIO SIMAS

luiz-antonio-simasTecerei aqui pequenas considerações sobre o bafafá do Luciano Huck procurando uma escola de samba que aceite uma dinheirama para fazer um enredo sobre ele mesmo. Já começo dizendo que torço muito pra que ninguém aceite essa grana por uma razão simples: as escolas de samba não precisam do dinheiro da celebridade global. Elas precisam, na verdade, de outra coisa: da crise financeira. De menos grana. Explico a aparente maluquice.

É evidente para mim que as escolas de samba foram perdendo potência, ao longo dos anos, na medida em que a grana corria mais solta e os desfiles ganhavam aparato mais luxuoso. Esse aparente paradoxo merece debates e reflexões. Por hora digo apenas que a saída para as agremiações voltarem a ter potência criadora é mesmo priorizar, e tentar conquistar de volta, o público de seus berços de origem.

É dessa parcela comunitária (exceções confirmam a regra) que as escolas se afastaram dramaticamente. O sambódromo não é frequentado pela população na hora da onça beber água, os ensaios de rua não suprem o desejo de se assistir ao desfile e os ensaios técnicos são quase as migalhas que sobraram – parecem o amistoso que o time joga para consolar a parte da torcida que não tem grana para ver a disputa da final do campeonato.

A prioridade do carnaval deve ser a da reconstrução das escolas de samba a partir daquilo que elas foram um dia: potentes instituições que, cotidianamente, inventavam e reinventavam laços comunitários e centros de circulação de saberes e sociabilidades forjadas na experiência imaginativa do precário.

É neste sentido que digo que as escolas estão precisando mesmo da crise.

Pagam-se fortunas a coreógrafos, acrobatas, técnicos em efeitos especiais, maquiadores, iluminadores, homens voadores, astronautas, ilusionistas, atrizes, atores, rainhas de qualquer coisa e similares. O padrão show de cassino em Las Vegas tomou conta do babado no século XXI e a glamourização da frase de efeito “pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”, nos levou a essa encruzilhada.

Quem sabe ela, a crise, nos lembre de que samba-enredo de qualidade é luxo, passista dizendo no pé é luxo, casal de MS/PB dançando para valer e para o público – sem correr o risco de ter a fantasia incendiada – é luxo, setor 1 vibrando é luxo, bateria cadenciada é luxo, Velha Guarda é luxo, ala de compositores fechada é luxo. A crise, quem diria, ao inviabilizar, em certa medida, delírios faraônicos, pode nos lembrar de tudo isso que parecia ter ficado para trás.

Que o apresentador com ganas e granas de virar presidente não venha atrapalhar a festa com aquilo que ela menos precisa agora: muito dinheiro.

Foto: Divulgação/Revista ALFA

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