Coluna Anderson Baltar
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Macartismo no samba – 2ª edição

17 de julho de 2012
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ANDERSON BALTAR

*Coluna publicada originalmente no dia 14/07/12 e que, misteriosamente, sumiu do sistema de atualização de notícias da Rádio Arquibancada.

Há pouco mais de três meses, através do amigo e compositor do Salgueiro, Dudu Botelho, recebi o convite para uma reunião. Segundo ele, o então pré-candidato a prefeito Marcelo Freixo estava interessado em ouvir um grupo de pessoas ligadas ao carnaval para colher críticas, sugestões e propostas. Desde o primeiro momento, Dudu frisou que não se tratava de um movimento político, que ninguém deveria se comprometer a votar no candidato. Apenas seria uma oportunidade – única até então – de termos a chance de fazer nossa voz ser ouvida por um postulante à Prefeitura. Aceitei de pronto.

Quem me conhece, sabe que não me escondo. Assumo minhas posições e vou com elas até o final. Sou petista e encaro qualquer boa discussão para defender os governos Lula e Dilma e o quanto este país cresceu nos últimos 10 anos. Mesmo assim, não me neguei a conversar com o candidato do PSOL, do qual, por sinal, faz parte o deputado em que sempre voto e nunca me arrependi: Chico Alencar. Digo mais, conversaria com qualquer candidato. Como profissional, já prestei serviços ao DEM e ao PMDB. Não sou sectário. Desta forma, fui à reunião com o espírito desarmado e, mais ainda, curioso para ver o que tal reunião produziria.

A reunião foi bastante proveitosa e várias ideias surgiram. Destas ideias, um manifesto. Em seu teor, nada diferente do que sempre propusemos nas linhas que escrevemos ou falamos nas transmissões da Rádio Arquibancada e em outros veículos da imprensa livre e sem rabo preso. Ao mesmo tempo que reconhecemos a importância do espetáculo e da indústria do carnaval, concluímos que muita coisa precisa mudar de rumo. Que o carnaval não pode ser visto como mercado, e sim, como bem cultural (apesar que esta não é a mesma posição do Diretor Cultural da Liesa – fazer o quê…). Que o carnaval não é atribuição da Riotur, e sim, da Secretaria de Cultura. Que o povo está cada vez mais longe do desfile e que o projeto original da Sapucaí previa uma grande geral para que as comunidades amantes do samba curtissem suas escolas, sem precisar se pendurar em viaduto ou sentir cheiro de mangue. Que os enredos estão cada vez mais virando panfletos de merchandising e abandonando a nossa mais genuína cultura. Que as escolas de samba menores estão cada vez mais escanteadas e, num gesto absurdo, sendo condenadas a virar bloco pela entidade que deveria defendê-las. Ou seja, nada de novo. Nenhum ovo de Colombo.

Meu amigo Luiz Fernando Reis, há um tempo, escreveu uma coluna se queixando que tudo que publicamos não repercutia nas mentes e corações dos donos da festa. Que nós só escrevíamos para nós mesmos. Pois bem. O manifesto criado por nós e encampado por Marcelo Freixo é um divisor de águas. Porque, mal ou bem, os dirigentes do carnaval pela primeira vez ouviram nossas críticas (ou, pelo menos, fingiram não ouvir). Ficamos felizes pela repercussão do documento e exultantes por finalmente termos lançado o debate sobre o carnaval numa campanha eleitoral. Ledo engano.

No início da tarde deste sábado, 14 de julho, recebo a ligação do presidente do Conselho Deliberativo da União da Ilha do Governador, Luiz Bruno. Ele, grande entusiasta do projeto de retomada do Departamento Cultural da escola, que estávamos articulando com sua ajuda, me informa, entre triste e constrangido, que a direção da escola decidiu me afastar e interromper o trabalho. O motivo: a repercussão do manifesto, que segundo ele, teria me transformado numa persona non-grata na Liesa. O curioso é que, na véspera, eu havia estado na sede da entidade para pegar os convites da Rádio Arquibancada para o sorteio do Grupo Especial. Se eu fosse tão indesejado assim, não teria conseguido os convites e sequer teria sido recebido com a cortesia habitual pelo assessor de imprensa da Liga, Vicente Dattoli.

Tinha ouvido rumores de pressões que outros colegas, ligados a diversas agremiações, tinham recebido por serem signatários do documento. Mas nunca poderia imaginar que tal ato vil pudesse acontecer dentro da União da Ilha do Governador, uma das poucas escolas em que a democracia vigora plenamente e onde os presidentes são eleitos a cada três anos, em respeito total ao estatuto da agremiação e às leis do país.

Tal ato de perseguição covarde me faz lembrar a caça aos comunistas empreendida nos Estados Unidos pós-guerra, o famigerado Macartismo. Me sinto, acima de tudo, desrespeitado como cidadão. Afinal, estamos em um regime democrático e todos temos o direito de assinarmos o que bem entendermos e apoiarmos quem desejarmos. E isso não afeta em nada a nossa vida cotidiana, profissional. Não entender que o debate é necessário é dar provas de miopia, mediocridade, fraqueza e subserviência.

Ficam as perguntas: o que tanto temem os donos do carnaval que se abalam tanto por causa de um manifesto lançado por um candidato de um pequeno partido de esquerda e apoiado por menos de uma centena de pessoas? Será que o documento não tem nada de proveitoso? Por que o medo do debate? Por que, ao invés de perseguir e tentar banir quem comete o “pecado” de discordar, não se busca o diálogo?

A vida continua. Entre ser um cordeirinho com brasão de diretor de escola e ser um jornalista comprometido com a minha consciência e cidadão apaixonado por carnaval, prefiro, sem dúvida, a segunda opção. Vida longa à União da Ilha e ao nosso carnaval. Que Deus os ilumine.

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