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Ninguém percebeu?

20 de junho de 2017
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Ninguém percebeu?

MARCOS LODI

A discussão a respeito do corte de 50% no repasse da prefeitura para as escolas de samba do Rio de Janeiro ganha contornos dramáticos e, automaticamente, atenção especial da mídia. Muito se fala em dinheiro, subvenção, queda na arrecadação, comprometimento de estrutura, e etc. Porém, vamos analisar a questão na vertente do poder.

Exatamente! Tudo é uma questão de poder. A estratégia política nos diálogos de Erich Voegelin já nos apontava que “a personalidade moral do indivíduo não é determinada pelas estruturas sociais em que se insere, mas a mediocridade do caráter pessoal facilita a corrupção das estruturas sociais”. Deste modo, levando para o contexto atual, os dirigentes do carnaval não podem reclamar, afinal se tornaram presas fáceis por vontade própria subestimando o “outro lado”, que não vem realizando ações fora da normalidade. Pelo contrário.

Ora, como você pode deduzir que um governo dotado de aparato técnico eclesiástico vá se curvar à robustez de dirigentes de agremiações carnavalescas que, outrora, foram contrários ao próprio mandatário? Ninguém sofre de amnésia.

Estamos acompanhando um contra golpe com subterfúgio fundamentado na desestabilização do oponente. Se podes enfraquecer uma camada que poderá oferecer resistência e ser contrária no futuro, qual seria o intuito de dar prestigio agora? Quanto maior a dependência e instabilidade melhor.

Não é filosofia de quintal. Estamos falando de poder. Governo versus classe e não há nenhum motivo pra diálogo, analisando o lado de quem detém o Executivo. Afinal, nem sequer o aparato eclesiástico, típico das faixas carentes apaixonadas pelo assistencialismo, foi utilizado.

Por enquanto, esta conversa fundamentada em confronto religioso, batucada de sábado na porta da prefeitura, “textão” em redes sociais, o que é lícito e democrático, porém emocionante e sem nenhuma conclusão racional e proveitosa, infelizmente não vai trazer soluções.

E o que proponho? Que tal dirigentes e profissionais do carnaval começarem a pensar com o cérebro ao invés do bolso? É preciso mostrar, de fato a relevância de todo este universo, que não movimenta apenas o “povo do samba”, mas envolve empresariado, profissionais das mais diversas áreas, imprensa mundial, economia, empregos formais e informais, contribuição histórico e cultural, etc. Mas nada disso é possível sem planejar ações que comprovem este retorno imensurável proporcionado pela festa, ganhando as mentes dos moradores das comunidades, os verdadeiros foliões do dia a dia, que estavam lá perto do viaduto, assistindo esta tragédia anunciada.

Não é culpa de ninguém, ou talvez seja. Quem se preparou estrategicamente para tudo isso? Que possamos deixar o pandeiro e a serpentina de lado por alguns minutos, procurar a passarela das bibliotecas, e voltar apoteoticamente mostrando que somos mentes pensantes, afinal, fazemos carnaval.

*Jornalista, psicanalista e repórter de carnaval.

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