Terreiro do Simas
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O Brasil africano na Sapucaí

25 de janeiro de 2017
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O Brasil africano na Sapucaí

LUIZ ANTONIO SIMAS

luiz-antonio-simasO carnaval de 2017 apresenta vários enredos de linha afro entre as escolas que cruzarão a Marquês de Sapucaí. União da Ilha, Unidos de Padre Miguel, Renascer de Jacarepaguá (que para meu juízo tem o melhor samba de 2017 entre todos os grupos), Acadêmicos do Sossego, Vila Isabel e Mangueira (com referências diluídas no sincretismo religioso afro-íbero-ameríndio) são exemplos disso.

Ao longo da história das escolas de samba, os enredos de linha afro – cristalizados como tendência pelo Salgueiro de Pamplona e seus discípulos, mas não exclusivamente vinculados à escola tijucana – apresentaram duas fontes bem definidas. Nos anos de 1960, prevaleceram os enredos históricos, que priorizavam as lutas pela liberdade e denunciavam os horrores da escravidão. Na década de 1970, o foco principal foi o patrimônio cultural de origem africana, com destaque para o universo dos candomblés e a mitologia dos orixás do panteão jeje-nagô.

Na década de 1960 – não por acaso o período em que as lutas pela liberdade nos territórios africanos só fazia crescer e no Brasil as demandas sociais que desaguaram no golpe civil-militar contra o governo de João Goulart, em março de 1964, se radicalizavam – algumas escolas de samba, capitaneadas pelo Salgueiro, começaram a apresentar uma visão do negro no Brasil fundada na ideia da resistência ao escravismo e na valorização de uma mitologia heroica dos seus personagens, em contraponto aos heróis militares, cientistas, políticos e escritores, da história oficial.

A revolução salgueirense, capitaneada esteticamente por Fernando Pamplona e sua turma, não se destaca exatamente por introduzir o negro nos temas dos desfiles (aqui ou ali a presença negra começava a aparecer). A grande transformação se refere ao protagonismo conferido ao negro e a descrição visual da história negra com contornos épicos, de acordo com as demandas políticas e sociais que os anos sessenta apresentaram.

A partir da década de 1970, e ao longo dos anos 80, os enredos afro-brasileiros começam a perder um viés político mais evidente e passam a abordar bem mais a cultura afro-brasileira, especialmente aquela ligada aos candomblés nagôs e suas divindades.

Levanto uma hipótese. A linha de enredos afro-brasileiros, mais notadamente os vinculados à revolução salgueirense, se inseriam fortemente no front das lutas pela liberdade, com um viés de exaltação mítica ao caráter guerreiro e insubmisso do negro no Brasil, em contraponto aos enredos que, na mesma época, investiam no abrandamento das tensões raciais.

Com o avanço da censura, e o aprofundamento do regime de exceção instaurado com o golpe de 1964, ocorre certo deslocamento da linha temática, que começa a sair do terreno fértil da história (minado pelo endurecimento do regime autoritário) e se situar mais a vontade no espaço culturalista das mitologias, crenças, costumes e tradições.

A fase áurea dessa linha, todavia, entra em declínio nos anos de 1990 e no início do século XXI (exceções valiosas confirmam a regra), curiosamente pouco tempo depois que o centenário da abolição (1988) repercutiu fortemente nas avenidas, em especial no enredo que talvez tenha sido o mais feliz em misturar questões políticas e culturais no mesmo desfile. Falo do Kizomba, o clássico da Unidos de Vila Isabel. O enredo da Mangueira, no mesmo ano, também se situou, de forma potente, neste entroncamento.

O declínio dos enredos afros talvez possa ser explicado por razões conjunturais que englobam, especialmente, duas questões: o avanço do neopentecostalismo, inclusive no mundo do samba, e a onda de enredos patrocinados por cidades e empresas dispostas a fazer merchandising usando as agremiações como plataformas de difusão de marcas. Oxalá, afinal, jamais patrocinaria uma escola de samba.

A volta dos enredos de linha afro, insinuada em tempos recentes e forte em 2017, pode ter ligação com a perda de patrocínio que atinge as escolas de samba e com a maior liberdade, em consequência disso, para o desenvolvimento de enredos autorais. É uma hipótese a ser confirmada ou não nos próximos anos.

Que eles, os orixás, inquices, voduns e os personagens históricos marcantes da cultura afro-brasileira, sejam bem-vindos de onde não deveriam ter saído.

Foto: Wigder Frota (Beija-Flor 2015)

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