Samba Meu
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Onde acaba a Lapa

8 de junho de 2017
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Onde acaba a Lapa

EDUARDO CARVALHO

eduardo-carvalhoEra manhã de uma quinta-feira quente de abril quando o velho gordo entrou no armazém e pediu uma lata de cerveja. Abriu, deu um gole no precioso líquido e colocou a latinha vermelha do lado de São Jorge, no pequeníssimo altar perto de uma das portas do estabelecimento. Concluído o rápido ritual, pediu um refrigerante (!) e foi falar mal da vida alheia com um conhecido que, instalado na única mesa daquele salão de 1907, acabava de ler alguma mentira no jornal.

Encostado no balcão de mármore centenário, o homem de 42 anos observou toda a cena, voltando em seguida à cerveja que supostamente matava sua sede – o que tenta em vão há pelo menos duas décadas e meia. E mergulhou de novo no silêncio barulhento da sua cabeça, onde desde a véspera volteava uma pergunta: “Onde acaba a Lapa”?

Era nisso que ele pensava quando entrou naquele armazém-bar-mercearia na esquina da Rua do Senado com a Avenida Gomes Freire. Três horas antes, havia saltado do metrô na Cinelândia e caminhado de encontro ao bairro que em tempos idos foi seu grande companheiro de samba, cerveja e madrugada.

Deixou os arcos para trás, dobrou na Lavradio e andou por entre antiguidades, bufês a quilo e gente suada. Parou na frente do número 100 e só nesse dia constatou o fim do histórico antiquário onde ele testemunhou a Lapa renascer pelas mãos do samba, na segunda parte dos anos 90 do século passado. Quando a noite caía naquela morada de tantos passados, todo mundo ficava sentado nos móveis à venda, levando a vida na palma da mão e na ponta do pé. Benzeu-se.

Banhado de suor e de umas poucas lágrimas, o homem de 42 anos continuou atrás de onde a Lapa acabava. Pensou em assuntar a respeito, mas, ao chegar ao fim da rua, no sentido que é o dos carros, percebeu que, à sua direita, fica o imóvel de número um. Achou melhor não aborrecer ninguém com a pergunta porque, afinal, nenhuma coisa – um bairro, uma rua, um sonho – haveria de terminar no número um.

Virou à esquerda e avançou devagar por duas ou três quadras. Cruzou com mendigos e engravatados na Rua da Relação, praguejou contra todos os Judas modernos com o balconista de um botequim sujo na Mem de Sá, velou o cadáver do IML na Rua dos Inválidos, lamentou por meninos e meninas de rua entorpecidos na Ubaldino do Amaral, foi dar uma olhada na velha sede da Cruz Vermelha Brasileira e, na volta, relembrou seus tempos de Clube dos Democráticos na Rua do Riachuelo.

A Lapa não acabava em canto nenhum.

Escaldado pelo sol de tantos outonos no Rio, percebeu que a luz clara do dia o deixava ver o bairro – e o mundo – por entre cores bem diferentes daquelas das noites de antigamente. Achou estranho, porém não desgostou do que viu. Mas, e o fim da Lapa, onde seria?

O homem de 42 então desceu de novo a Gomes Freire e teve saudade das noites de samba na Casa da Mãe Joana. Dali, resolveu subir a Mem de Sá: e sentiu, de uma vez só, todas as ressacas ganhas na Casa da Cachaça, refez mentalmente a sua trajetória em tantas noites memoráveis no Carioca da Gema e em muitos quase-amanheceres no Capela, relembrou as incontáveis abrideiras no Bar Brasil.

Depois, olhou de canto a Fundição e o Circo Voador e andou depressa rumo à Joaquim Silva. Era ali, no Semente, o original, que em 1998 ele ouvia os sambas mais bonitos, que depois saíram pelas janelas do minúsculo bar, passaram pelos aquedutos iluminados e trouxeram gente do mundo todo ao velho bairro redivivo.

Desviou de esgotos e de vira-latas até chegar à esquina da Teotônio Regadas, de onde avistou a Adega Flor de Coimbra. Quase seguiu até o Cosmopolita, na Travessa Mosqueira, mas desistiu. E nada de encontrar o tal lugar onde a Lapa talvez terminasse.

Misturou-se aos turistas e, como eles, embeveceu-se pela grande escadaria colorida. Subiu os degraus até o ponto em que, numa ligeira curva para a esquerda, os azulejos se acabam e permanecem apenas os paralelepípedos que pavimentam uma pequena rua sem saída. Ele nunca soube da existência daquele pedaço de Lapa.

Foi até o muro branco que põe fim à rua. Sentou-se num banco durante algum tempo, o homem de 42 anos. Uma saudade funda o invadiu. Pensou muito na vida e na morte, no que tem visto e vivido nesse tempo todo. Sentiu-se em paz.

Ao voltar em direção à escadaria, passou por um caboclo debruçado na sacada de um sobrado cinza e arriscou a pergunta:

– Amigo, onde acaba a Lapa, hein?

Ouviu dele assim:

– A Lapa não acaba. Nem onde, nem quando. A Lapa tá aí, na gente. Só entende a Lapa quem vem aqui não pra vê-la, mas pra se ver nela. Entendeu?

O homem de 42 anos fez que sim com a cabeça e foi embora. Quando começou a descer a comprida escada, viu o rosto daquele mesmo cara desenhado numa parede. Sobre o chapéu pintado de vermelho, estava escrito o nome dele: Selarón.

Olhou para trás e não avistou mais nem o sujeito, nem o sobrado cinza. Depois de alguns segundos, voltou a si ao ser cutucado por um casal de gringos que lhe pedia para bater uma fotografia.

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