Samba Meu
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Pedra do Samba

18 de maio de 2017
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Pedra do Samba

EDUARDO CARVALHO

eduardo-carvalhoPor agora está fazendo dez anos que conheci a roda de samba da Pedra do Sal (refiro-me à original, a das segundas-feiras). É difícil explicar, mas, naquele 2007, ela foi um sopro de ar puro vindo direto até o meu coração.
Por muitas e muitas segundas, eu saía do Samba do Trabalhador – outra maravilha, então com apenas dois anos de vida – e aportava ali, na Rua Argemiro Bulcão, Gamboa, com uma felicidade que ainda hoje não sei descrever. Depois, com outros horários no trabalho, passei um bom tempo sem ir ao Renascença Clube e então a roda da Pedra, que ia até perto da meia-noite, era o meu refúgio, a minha terapia semanal.

Naquele tempo, ela era pequena e só os instrumentos eram plugados. Se havia microfone para as vozes, eram ruins ou não eram notados, porque quem frequentava é que segurava o canto puxado pelos músicos, embalado por acordes e batuques. Boa parte do repertório durante a noite era formado por sambas nem tão conhecidos assim e por outros quase desconhecidos, o que arejava os nossos ouvidos e nos fazia aprender ou relembrar muita coisa.

Também me lembro bem de outro diferencial musical daquela mesa: além de samba, partido-alto, jongo, tocava-se uma ou outra bossa nova, um ou outro Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Toquinho, Tom Jobim. Isso dava um colorido novo, uma lufada de ar que reforçava a riqueza da música brasileira e a beleza que se dá quando o samba se apropria de outras referências e as coloca dentro do seu molho único e especial.

O clima era muito tranquilo e respeitoso, no melhor estilo “cada um na sua”. Quem ia para curtir o samba precisava chegar bem perto dos músicos para ouvi-los e cantar junto, sentir a batucada – como tem que ser! Não se trata aqui de qualquer purismo ou vontade de deixar o ritmo em guetos para poucos “iniciados”. Nada disso. Mas que era bonito demais ver uma roda mais espontânea, sem tantos sucessos fáceis, sem tanto “lado A”, isso era…

Na época, a roda era capitaneada pelo pessoal do grupo Batuque na Cozinha. Eu me lembro muito do Ary, cavaquinho e voz (acho que depois saiu do grupo, mas continuava indo lá). Era ele quem puxava bossa nova, um ou outro Martinho da Vila “lado B”, coisas do tipo. Eu admirava a cultura musical dele e adorava aquele lado “além-samba” que o Ary levava para a roda.

Era, enfim, uma roda de samba na essência: ao ar livre e de graça, num lugar histórico e simbólico, com cerveja gelada e alguns ambulantes oferecendo o fino da baixa gastronomia (que caldos, que caldos!). O samba ecoava aos pés do Morro da Conceição, na velha Gamboa, região do Cais do Valongo, por onde chegaram ao Rio de Janeiro, muito tempo antes, mais de um milhão de negros escravos vindos do continente africano para ocuparem o lugar a eles destinado pelas elites cretinas desse país: o de protagonistas das enormes desigualdades que ainda nos assolam como povo e como nação.

Há muito tempo não apareço por lá, embora saiba que, de um jeito ou de outro, continua tendo samba na Pedra. Faz uns três anos, voltei e não gostei muito do que vi. Tinha gente demais e boa parte estava ali para outros fins que não ouvir e cantar samba. Paciência.

De toda forma, a roda gerou frutos, como outra em que compositores cantavam apenas seus sambas inéditos (na época, acontecia às quartas, mas parece que migrou para um bar na Gomes Freire, na Lapa – vou checar pessoalmente e depois conto). Ali também nasceu, em 2012, o Moça Prosa, grupo feminino de samba que homenageia mulheres compositoras e cantoras, como Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra, Beth Carvalho, Leci Brandão, Alcione, Elizeth Cardoso e Aracy de Almeida, entre outras. Todo terceiro sábado do mês, a partir das 17h, elas estão ali pertinho, no Largo de São Francisco da Prainha.

Torço para que a Pedra do Sal continue sendo sempre a Pedra do Samba: história viva do Rio, memória viva da negritude brasileira, Quilombo do samba que resiste e nos ajuda a resistir e a cantar, apesar dos tantos pesares que nos cercam.

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