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Portela e Mangueira brilham

9 de fevereiro de 2016
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Portela e Mangueira brilham

ANY COMETTI E VITOR GILARD

A segunda noite de desfiles do Grupo Especial trouxe um nível muito superior à dos cortejos de domingo. Cinco das seis escolas se apresentaram em condições de disputar uma vaga no Sábado das Campeãs – a exceção foi a São Clemente, que realizou um desfile com vários problemas. Porém, a Portela, com uma apresentação arrebatadora e a Mangueira, bela e empolgante, se destacaram. Se o Salgueiro não explodiu como se esperada, ao menos a escola pouco errou. A Imperatriz Leopoldinense desfilou com a competência habitual e a Vila Isabel desmentiu todos os boatos que a colocavam como candidata ao rebaixamento.

Vila Isabel - Foto Marco Antonio Cavalcanti (Riotur)UNIDOS DE VILA ISABEL
Com a responsabilidade de abrir o segundo dia de desfiles, a Vila Isabel, penúltima colocada do Carnaval passado, mostrou neste ano que aprendeu a lição e teve como grande destaque, justamente, a qualidade no acabamento de suas alegorias e fantasias.
A escola atravessou a avenida homenageando o centenário do político brasileiro Miguel Arraes, aclamado como “Pai Arraia”, com um canto constante por parte dos componentes. Conforme avançava na Sapucaí, a escola, que de inicio retratou o sofrimento do sertão nordestino em tons pastéis e amarelados, conquistava o público com as cores de suas alegorias.
De início sem reação, o público foi agitado pelas bossas da bateria e reagiu aprendendo a cantar o samba, festejando o desfile da Vila com alegria superior aos desfiles do dia anterior.

SALGUEIRO
Salgueiro - Foto Raphael David (Riotur)O desfile da Unidos de Vila Isabel mal havia acabado quando as arquibancadas já saudavam Seu Zé, rei da malandragem, grande homenageado do Salgueiro. Com o samba explosivo na ponta da língua do público, a festa, colorida com muito vermelho, viu diversos malandros na comissão de frente e uma fantasia luxuosíssima do primeiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Sidclei Santos e Marcela Alves. No entanto, o abre-alas, que vinha logo atrás, apagou já na frente da primeira cabine de jurados, e assim passou pelos outros três módulos. Os componentes não se deixaram abater e deram show de harmonia, chegando, algumas vezes, a abafar o potente som da avenida. As arquibancadas não se calaram por um minuto e proporcionaram uma recepção calorosa e emocionante à escola, que passava muito bem vestida e encantando pela riqueza de detalhes das fantasias. Exceto o abre-alas, nenhuma outra alegoria apresentou problemas durante a passagem do Salgueiro. O terceiro carro, que representava o lado mulherengo da malandragem, impressionava pela iluminação e cores vivas, mas foi o último carro que provocou uma apoteose ao fim do desfile. Intitulado “Meu Santo é Forte”, a alegoria provou que a comunidade salgueirense de fato conta com uma força inexplicável, que não se deixa abater por nada. Nem por um abre alas apagado.

SÃO CLEMENTE
São Clemente - Foto Raphael David (Riotur)Em sua homenagem aos palhaços, a São Clemente encantou o público com a graça de suas fantasias e alegorias, criações da carnavalesca Rosa Magalhães. Logo na comissão de frente, os simpáticos palhaços punham em prática truques de ilusionismo que arrancavam aplausos das arquibancadas.
Nos primeiros setores, a escola levou o folião à idade média e às feiras, nas quais a arte de entreter e fazer sorrir nasceram. A iluminação dos carros apresentou algumas falhas: o segundo carro cruzou a maior parte da avenida apagado; e os dois últimos carros também estavam com a maioria da iluminação apagada do lado direito. Além disso, um buraco foi formado no terceiro setor e deve causar penalização no quesito evolução. Embora o samba não tenha sido refletido com vigor pelo público, os componentes cantavam constantemente.
Ao final do desfile, o último carro trazia um palhaço que batia tampas de panelas encostado em um livro que, na parte de trás da alegoria, exibia uma foto do Congresso Nacional com um circo montado no gramado à frente. As duas alas que antecediam o carro remetiam aos recentes protestos e panelaços que aconteceram no país e traziam palhaços batendo panelas em um ritmo claro e em partes definidas do samba, aparentemente sem prejudicar a harmonia do desfile.

PORTELA
Portela - Foto Tata Barreto (Riotur)A viagem sem fim da Portela rumo a um título que não vem há mais de três décadas não poderia ter sido mais gloriosa. Com o meteórico começo atravessando o mar, a águia portelense terminou como um foguete: foi a escola mais rápida a passar pela Sapucaí. Foram uma hora e doze minutos de uma viagem colossal. Teve Egito, Perdidos no Espaço, dinossauros do Elo Perdido e Eldorado. Tudo muito bem encaixado e vestido, com alegorias disputando entre si para ver qual enlouquecia mais as arquibancadas. Atordoados, os portelenses (e não-portelenses) se entreolhavam com uma nítida incredulidade.
Canto forte, samba na ponta da língua (dos componentes e do público), evolução sem falhas e uma união entre a tão conhecida tradição portelense e a inovação de Paulo Barros. A ressalva fica por conta da água jogada pela comissão de frente na avenida. Logo atrás vinham o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, a velha guarda, milhares de componentes e mais duas escolas.
De toda forma, nada que tire o gigantismo de um desfile que teve um Gulliver de metros e mais metros sendo escalado em plena avenida. Se no fim dessa viagem a Portela vai faturar o tão aguardado título, só a quarta de cinzas vai dizer. Mas que a águia fez uma viagem rasante que encantou cada par de olhos da Sapucaí, não há dúvidas. Quem viu, viu. E não vai esquecer jamais.

IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE

Imperatriz - Foto Tata Barreto (Riotur)Após uma apoteótica Portela, a Imperatriz Leopoldinense, com o melhor samba deste Carnaval, conforme eleito pela equipe de comentaristas da Rádio Arquibancada, não teve grande resposta do público ao samba de Zé Katimba.
A escola desfilou dentro do tempo, com andamento constante e um canto uniforme por parte dos integrantes – com algum reflexo nas arquibancadas populares da dispersão. As fantasias chamaram a atenção pela beleza e os carros alegóricos eram bastante claros na passagem do enredo.
Na Apoteose, entretanto, os componentes sofriam com o peso e o modelo das fantasias – muitos passaram mal e precisaram ser recolhidos pela equipe de maqueiros da Sapucaí, entre eles baianas e componentes de ala, com as fantasias mais pesadas e tapadas. Conforme a escola passava e as fantasias se tornavam mais leves, os componentes reagiam com um canto melhor e mais vigoroso.

MANGUEIRA
Mangueira - Foto Gabriel Santos (Riotur)Oyá abriu os caminhos para uma Mangueira esteticamente revitalizada pelas fantasias muito bem desenhadas e acabadas por Leandro Vieira. Em sua estréia como carnavalesco no Grupo Especial (o jovem artista deu seu pontapé inicial ano passado na Caprichosos de Pilares e foi um dos destaques da Série A), Leandro optou por uma verde e rosa mais leve, facilitando a harmonia e a evolução do componente. Logo de cara, encarou o desafio de homenagear a catedrática intérprete brasileira Maria Bethânia.
O belo samba – dos mais comentados do ano – contou com o apoio de grande parte do público, mas não apresentou a grande explosão aguardada. Foi o suficiente para sustentar um desfile que tinha a emoção como combustível principal. A religiosidade (das principais características de Bethânia) esteve presente por toda a passagem da Mangueira. Se os carros não impressionavam pela grandiosidade, a estética e o acabamento davam conta do recado.
O problema na iluminação do quinto carro (que apagou e acendeu em sua passagem) e a evolução um tanto irregular perto da dispersão não apagaram o brilho de uma homenagem merecida, digna e muito bem executada pela verde e rosa. Aliás, carnaval homenageando grandes artistas na Mangueira não é novidade. E a competência da escola nessas ocasiões também não. O carnaval deste ano, fechado por ela e pelo sorriso esplendoroso de Bethânia provam isso. Já fica no ar aquela saudade de um carnaval marcado por grandes sambas enredos que embalaram desfiles que tiveram altos e baixos, mas que continuaram provando que o Rio de Janeiro promove a maior festa popular do planeta. E a mais emocionante também. Que comece a contagem regressiva: 2017 é logo ali!

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