Samba Meu
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Ratos e urubus, larguem as nossas marchinhas

2 de fevereiro de 2017
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Ratos e urubus, larguem as nossas marchinhas

EDUARDO CARVALHO

eduardo-carvalhoAlinho-me com aqueles para os quais o triunfo do “politicamente correto” é a morte do humor. Ainda: do jeito que a coisa vai, se não lutarmos o bom combate, com argumentos e bom senso, ele será o responsável pelo começo do fim da liberdade que fundamenta o Carnaval.

Está na rua o bloco da polêmica sobre as letras, supostamente ofensivas, de muitas das mais bonitas e históricas marchinhas carnavalescas. Qualquer debate é bem-vindo, mas me parece que aspectos muito importantes estão sendo deixados de lado em boa parte das discussões.

Para começo de conversa, a verdade não tem donos. Aqui, na coluna que assino a convite desta Rádio Arquibancada que tanto admiro, exponho, por óbvio, a minha opinião – que é, tão somente, uma opinião. Introdução e ressalva feitas, vamos ao que quero dizer.

Alterando parte da letra que havia sido composta em 1929 por dois pernambucanos, os irmãos Valença, Lamartine Babo leva a fama – e hoje, a surra – pela marcha “Mulata” (título original depois substituído por “O teu cabelo não nega”). Sem entrar no mérito de épocas e conceitos distintos, vamos ao que diz o refrão: “O teu cabelo não nega, mulata / Porque és mulata na cor / Mas como a cor não pega, mulata / Mulata eu quero o teu amor”.

Se tivermos olhos de ver, é uma interpretação possível e bastante razoável dizer que a canção é uma declaração de amor, não de preconceito. Afinal, mulata, como a tua cor (que eu queria ter também porque me encanta) não pega, então eu quero o teu amor. Eu quero o teu amor (eu não digo que és minha escrava nem empregada nem amante nem inferior a mim nem, nem, nem…). Que mal há nisso, senhoras e senhores?

Quando Abelardo Barbosa, o Chacrinha, encomendou ao genial João Roberto Kelly uma música carnavalesca que versasse sobre as mulheres cuja opção sexual – legítima! – é por outras mulheres, recebeu de volta a marchinha “Maria Sapatão”. Aquela que, na ironia, na brincadeira e na rima sem as quais não existe o Carnaval, de dia é Maria e, de noite, João.

“O sapatão está na moda / O mundo aplaudiu / É um barato, é um sucesso / Dentro e fora do Brasil”. Repara só: é um sucesso, é um barato que o mundo aplaudiu. De forma absolutamente transgressora, a música foi pura vanguarda.

Os exemplos são inúmeros. E é claro que só quem é “alvo” desse tipo de música (por questões como gênero ou etnia) é que pode se sentir ou não ofendido. É o famoso “o dono da dor sabe como dói”. Protestar ou mesmo não participar é direito inalienável de quem se sente atingido, assim como respeitar isso é obrigação de qualquer um que viva em sociedade. Ponto.

Mas é preciso ter a clareza de que o Carnaval é, necessariamente, um tempo-espaço fora do tempo, fora da vida normal. É festa profana durante a qual o dionisíaco que habita em nós está no comando, deixando, pela embriaguez (consciente ou não), os limites e as medidas caírem no esquecimento. Você é e faz (e canta) no Carnaval o que você não pode ser no resto do ano. É nele que a troca de papéis e o expurgo das frustrações se dão, ludicamente, para que a gente aguente o tranco que é viver.

Dizer que a trilha sonora carnavalesca provoca e perpetua o preconceito e a intolerância é como dizer que depois de assistir a um filme de ação com tiro, porrada e bomba cada espectador vai sair do cinema matando pessoas na rua. O Cinema, como Arte que é, está aí não para que eu veja o filme, mas para que eu me veja no filme. O meu emocional precisa viver naquele tempo o que eu não posso e não devo vivenciar na vida real.

“A arte existe porque a vida não basta”, disse Ferreira Gullar. O Carnaval, também.

Quem se sentir ofendido, não cante, não toque. Os que desejarem cantar, cantem como festa e galhofa, sem jamais agredir o coleguinha do lado que não quiser “compactuar” com uma letra que o machuque. Cada um na sua ou, como já disse um sensato Mr. Catra: “Deixa as pessoas”.

No mais, sempre que chega o mês de Momo, são os versos do samba-canção de Wando (ele mesmo, o politicamente “incorreto” das calcinhas) e Nilo Amaro que rodopiam na minha cabeça anunciando o Carnaval. Samba que talvez grande parte da Zona Sul bronzeada que segue o bloco dedicado a ele desconheça:

“Vem amor
Enxugue as lágrimas dos olhos seus
Deixe o passado pelo amor de Deus
Tristeza aqui não tem lugar
Pra que chorar

Olha amor
A praça toda iluminada
Tem tanta gente nas calçadas
Meu bloco tem que desfilar

O importante é ser fevereiro
E ter carnaval pra gente sambar
O importante é ser fevereiro
E ter carnaval pra gente sambar”

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