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Rosa Magalhães: “faremos o possível pelo bi da Portela”

22 de janeiro de 2018
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Rosa Magalhães: “faremos o possível pelo bi da Portela”

ANDERSON BALTAR

Artista consagrada, com sete títulos em seu currículo, Rosa Magalhães esteve, nos últimos três anos, à frente do barracão da São Clemente, onde imprimiu à escola de Botafogo um padrão de competitividade. Porém, apesar dos belos desfiles, não conseguiu chegar entre as campeãs. À frente do barracão da Portela, Rosa agora tem um novo desafio em sua vitoriosa carreira: conduzir a azul e branca de Oswaldo Cruz e Madureira ao bicampeonato. Nesta entrevista, ela fala sobre o seu momento de carreira e faz reflexões sobre a situação atual do Carnaval e do país.

Depois de três anos na São Clemente, você está em uma escola que tem a responsabilidade de defender o título. Esse desafio foi o que fez você mudar de ares?

Um pouco. Porque eu não tenho nenhuma reclamação quanto à São Clemente. Eles são formidáveis, fui super bem tratada. Dentro do nosso orçamento, saiu tudo o que foi projetado. Mas eu achei que era interessante…

Voltar a disputar campeonato?

Não voltar a disputar campeonato, porque a São Clemente foi bem.

Mas eu sei que você ficou chateado com a questão das notas, do peso da bandeira na hora do julgamento.

Acho que não. É que você às vezes se aborrece com o julgamento. Julga uma de um jeito e outra, de outro. Aí você vê que tem um certo problema… Mas isso é normal. Cada um tem sua predileção.

E esse convite da Portela veio a calhar, para dar uma mexida.

Sim, dar uma mudada.

Como foi chegar numa escola que, depois de tanto tempo, conquistou um campeonato? Você sente a responsabilidade de dar o bicampeonato para a Portela?

Todos que estão concorrendo, desde a mais modesta à mais rica, têm essa vontade. Claro que se puder vir o bi, melhor. Se não vier, deu azar. Nós vamos fazer o possível. Todo mundo faz o melhor que pode. Vamos fazer o possível para ficar bom. Eu queria ter começado um pouquinho mais cedo, mas todo mundo teve seus contratempos.

Como você vê essa situação do Carnaval?

Eu acho que é uma coisa temporária. Por exemplo, São Paulo agora está muito bem. Também o Carnaval de rua, blocos… Nós temos que estimular as pessoas a se divertirem, a dançarem e cantarem. A vida já está tão difícil, tantos desencontros como no ano passado, tantas declarações e tantas descobertas fatais, que é um dia para cantar, dançar e deixar o resto pra lá.

Mas você acha que esse momento é bom para as escolas de samba se repensarem?

É bom para dar um sacode no orgulho. Mas o povo não é fácil não, estão mexendo num vespeiro.

Eu me lembro de quando falamos há dois anos na São Clemente, quando se começou a mexer, reduzir número de carros, e você dizia que, se tivesse que fazer um desfile com duas alegorias, faria.

Sim, dá pra fazer. Isso depende muito da época. Vai e volta.

No “Bumbum…” eram três carros.

Só. E eram pequenininhos! Não tinham nem chassis. Nós pegamos um chassi do aeroporto, daquele carrinho que anda na pista, que carrega mala… era aquilo. E era emprestado. A gente fazia um apoio com ferro. Aquele carro cabia numa sala. Tinha mais ou menos 6m x 6m.

Era um Carnaval mais livre?

Eu acho que você era mais “ponta”. Os horários não tinham esse rigor geométrico. A televisão passava conforme ia acontecendo. As escolas grandes, a Mangueira, a Portela, a Beija-Flor, elas gastavam mais do que uma hora e meia. Tanto que o desfile já acabou meio-dia. E lá estava o povo assistindo, sentado no calorão. É isso que anima. Esse povão que vai ver, cantar junto.

E hoje o desfile acaba às cinco e meia da manhã…

Pois é! Você vai tomar um café da manhã e nem tem um lugar aberto ainda. Até nos hotéis o café começa às sete horas da manhã. Aí você vai pra casa, não tem nem uma esticadinha! Porque é divertido depois… tomar café da manhã, tirar o sapato, imunda e cansada.

Sua rotina depois do desfile é essa?

É. Pra relaxar. Porque na quarta-feira é outro pesadelo.

Você fica em casa na apuração, não é?

Fico. Nunca fui. Um calor enorme, as pessoas irritadas, nervosas… Eu fico em casa.

Você tem essa característica de procurar histórias inusitadas. Você já tinha esse enredo na gaveta há muito tempo?

Não há muito tempo. Eu já conhecia a história, mas não tinha detalhes.  Um amigo meu me emprestou um livro, mas eu ainda assim achei que faltava informação. Depois eu li uma tese muito boa sobre o tema.  Tem muitas histórias interessantes por aí.

Você acha que o Carnaval tem essa função, de revelar essas histórias?

O Carnaval tem muitas funções. Uma delas é essa: contar histórias. O Zumbi, por exemplo, que o Pamplona fez. Ninguém nem sabia quem era Zumbi, a não ser no meio acadêmico. Depois ele se converteu em um símbolo de juventude, de liberdade racial. E está lá na Presidente Vargas, virou feriado. É assim, você põe uma pedrinha, depois outro vem e coloca outra pedrinha e olhamos mais pra frente.

Você levantou várias histórias em sua carreira.

A do jegue eu acho uma maravilha.

É a sua favorita?

Pelo inusitado da história. É uma história completamente absurda! E tudo verídico. Eu acho que, daqui a alguns anos, se contarem essa história que está acontecendo com a gente agora, vai ser um pouco parecido (risos).

Quem seria o jegue?

Podem ser os professores, médicos, policiais, aposentados que não estão recebendo, miseráveis. Isso é muito triste. Num país tão rico, tão acolhedor, tão cheio de tudo, ter essa gentinha safada, sem amor nenhum ao próximo.

O momento em que vivemos te inspirou a fazer o enredo da Portela? A intolerância?

Sim, a intolerância, a mesquinhez, as dificuldades, a perseguição religiosa. Isso tudo é tão ultrapassado… Até aquela separação lá de Barcelona, os ricos querem se separar dos pobres. Ah, que coisa feia! A cidade mais rica quer se separar. Imagina se São Paulo resolve isso.

A Inglaterra também, que saiu da comunidade europeia.

Sim, todos olhando pro próprio umbigo.

Como o enredo será contado?

Muito linearmente. É uma viagem.  O começo já é em Recife, chegamos em Recife. Depois os judeus, que saíram de Portugal por causa da inquisição, vão ficar em Recife, são muito bem recebidos, porque o interesse era comercial, até que os portugueses, vinte e tantos anos depois, conseguem reconquistar Pernambuco. E a grande riqueza da época era a cana-de-açúcar. E então os portugueses disseram que eles tinham que sair dali, se mudar. Uma parte vai pra Holanda, eles eram das Companhia das Índias, estavam fazendo negócio. Outra parte vai para o Caribe plantar cana e a outra parte resolveu ir para outro empório, que era Nova Amsterdã, na América do Norte. Elas são presos pelos piratas, depois pelos franceses, uma grande confusão. Mas chegam na América do Norte, onde vão trabalhar com venda de peles. E, sobretudo, vão se estabelecer numa região que, depois, vai se chamar Wall Street. Olha que coincidência! E aí fundaram a cidade de Nova Iorque quando chegam os ingleses e expulsam os holandeses. Uma das descendentes desses brasileiros e portugueses que foram pra lá escreveu um poema que está da base da Estátua da Liberdade, muitos anos depois. A Estátua dá boas-vindas aos imigrantes, aos abandonados, aos refugiados, aos desvalidos, maltratados, e aquela seria a terra que iria acolhê-los.

E esse enredo justamente mostra a importância da união e da tolerância com quem vem de fora.

Eu acho natural que, no momento em que está o país, as pessoas desejem um lugar melhor. Até tudo se ajeitar. Porque numa hora ajeita.

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