Coluna Anderson Baltar
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Síndrome de Estocolmo no samba

17 de dezembro de 2015
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Síndrome de Estocolmo no samba

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ANDERSON BALTAR

Por conta de um dia atribulado de trabalho, só agora tenho condições de escrever sobre a lamentável decisão da Rede Globo em mutilar, com requintes de crueldade e desrespeito, a transmissão do desfile das escolas de samba no Carnaval 2016. Muitos colegas colunistas já definiram, com a devida propriedade, o sentimento de frustração e revolta que tomou o mundo do samba desde a noite de quarta-feira (16), quando a notícia começou a circular. Desta forma, para não correr o risco de ser repetitivo, pretendo abordar a situação de uma forma mais ampla e procurando encontrar alternativas.

É público e notório que, há cerca de 15 anos, quando se institucionalizou o monopólio da transmissão televisiva, as escolas de samba cariocas passaram a se tornar reféns da Rede Globo de Televisão e seus interesses. Por conta de contrato, já assistimos grandes escolas abrindo desfiles, como um chamariz para o horário nobre da emissora. Também ficamos alijados, por muitos anos, da exibição das escolas do Grupo de Acesso por conta da tentativa de nacionalizar um evento local – no caso, o desfile paulista. Assistimos impotentes à redução do tempo de desfile e do número de escolas. Pior: constatamos a mutação do desfile em apenas mais um sensaborão programa da linha de shows, com a transformação do boxe de bateria em uma boate brega, a interrupção da narração para flashes bobocas em camarotes, a escalação muitas vezes inexplicável de comentaristas e a total falta de análise crítica das apresentações das escolas.

Muitos sambistas, especialmente os dirigentes, dizem: “não podemos fazer nada, são eles que pagam”. O que mais me choca são as opiniões que vêm a seguir. Algo como “a TV é uma grande parceira, sem ela nós não teríamos a menor condição de fazer o grande espetáculo”. Não tenho outra definição para esse estado de coisas do que dizer que os nossos dirigentes são acometidos de uma inexplicável Síndrome de Estocolmo em relação à TV Globo. Ninguém está confortável, ninguém gosta do produto. Mas ninguém tem coragem de contestar e ainda há quem diga que é ruim com a Globo, mas seria muito pior sem ela.

Será? Talvez se as escolas de samba continuarem adormecidas em relação a uma visão profissional de Comunicação. O mundo do carnaval ainda engatinha em relação a conceitos simples de Marketing. A isso, soma-se uma visão eterna de vira-latas que o sambista tem em relação à mídia e que remonta aos tempos dos tripés pede-passagem, que sempre saudavam a imprensa escrita, falada e televisada. Na cabeça de muito sambista, é uma bênção ter uma grande emissora de TV transmitindo o desfile e, para não perder essa benesse, qualquer coisa deve ser aceita goela abaixo. Não!

A televisão é importante? Sem dúvidas. Mas não pode ser a principal fonte de receitas das escolas de samba. Especialmente em um momento em que a TV aberta decai a olhos vistos em matéria de audiência, relevância e faturamento. A própria TV a cabo já se encontra superada em vários aspectos. Estamos na era do streaming e do on demand, em que muitas pessoas já nem assistem mais os programas convencionais. Ao contrário, pagam serviços como Netflix e consomem canais do Youtube.

Qual o caminho? Abrir o leque de possibilidades de arrecadação. Com um boa estratégia de Marketing, é possível criar categorias de patrocínio, abarcando diversos tipos de segmentos. É seguir os bons modelos existentes, como o da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, nos quais as empresas se digladiam para ter o direito de ser a caneta ou o curso de inglês oficial do evento. Desta forma, vários tipos de companhias com diversas capacidades de investimento conseguirão chegar ao carnaval.

Além disso, é fundamental tratar bem o público que vai à Sapucaí, possibilitando uma boa experiência ao assistir ao desfile, com boas opções de consumo e entretenimento ao longo da avenida. Que o acesso seja rápido, fácil e seguro. Que a comida seja boa. Que a fila no banheiro seja pequena. E, principalmente, que os ingressos sejam vendidos pela internet. Lugar de fax é no museu.

Tratando bem quem vai à avenida, essa pessoa volta. E indica aos amigos. E faz a relevância do evento aumentar ainda mais. Não é o que assistimos nos últimos anos. Os ingressos já não se esgotam mais na velocidade anterior e podem ser comprados, em muitos casos, ainda no dia do desfile. Os milhares de turistas que vêm à cidade para o carnaval de rua não são nem um pouco estimulados para conhecer a Sapucaí. Estamos nos fechando em nosso mundinho e, pior, graças a estratégias equivocadas, deixando de conquistar outros corações. Com uma transmissão ruim e mutilada, quem vai passar a gostar das escolas de samba?

E, nem precisa dizer, acabar com esse tenebroso monopólio de transmissão. Não é possível que um terço de um evento de tamanha relevância não seja exibido para que um reality show seja priorizado. É um escárnio saber que a TV Globo trata o carnaval da mesma forma que trata um campeonato de MMA. E, aí, não se iluda, a relação tem de ser profissional. O contrato deve obrigar a transmissão do evento na íntegra. E ponto final. Não dá mais para tolerar o papo de que “eles são nossos parceiros”. A relação é comercial e a transmissão de TV não pode ser encarada como quase uma esmola. Basta se impor. A Fifa exige das emissoras que compram os direitos a exibição das 64 partidas. E a Globo obedece.

Para finalizar, cabe retornar a um ponto que foi abordado pelo manifesto que ajudei a elaborar em 2012 e foi encampado pelo então candidato a prefeito Marcelo Freixo. É necessário, para ontem, que haja alguma regulamentação que impeça o monopólio. Lanço desde já a ideia de que formemos um grupo de sambistas e preparemos, em conjunto com deputados federais comprometidos com a cultura popular, um projeto de lei que faculte às TVs educativas o direito de transmitir, sem qualquer tipo de pagamento de direitos, qualquer evento cultural que tenha investimento público e relevância social. Desta forma, pelo menos, garantiríamos uma forma de o público não ser afetado por essa lamentável prática do “compro, mas não transmito”, tão comum à Rede Globo de Televisão.

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