Delírios em Foco
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Sou Mocidade, sou independente

17 de fevereiro de 2017
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Sou Mocidade, sou independente

WIGDER FROTA

wigder-frota“Deixe nossa mata sempre verde, deixe nosso índio ter seu chão” foi o que minha amada cantou para mim, quando me escolheu.

Sim, foi no delírio de “Como era verde o meu Xingu” que a Mocidade me conquistou, me colocou de joelhos em plena Sapucaí, me levou às lágrimas… foi há tanto tempo, mas parece que foi ontem, lembro em detalhes daquela manhã de 14 de fevereiro de 1983, quando os desfiles do Primeiro Grupo eram feitos em uma só noite, e o palco dos meus delírios era todo montado em ferro…

No ano seguinte, me levou ao êxtase total com o delicioso, escandaloso, atrevido, “Mamãe eu quero Manaus”. Foi, então, quando decidi que não passaria mais um ano sem desfilar na minha escola. E que sorte! Estreei em 1985, desfilando no abre alas de “Ziriguidum 2001, carnaval nas estrelas”, e fomos campeões.

De Fernando Pinto, que considerava um querido amigo, fui Arlequim Espacial, Índio de Cassino, Roqueiro, e tinha sonhos de ser muitos outros de seus personagens alucinantes, mas o gênio resolveu partir mais cedo, nos deixando órfãos, sem o o pai da tropicália maravilha.

Aí chegou 1990, ahhhh…. Mil Novecentos e Noventa!!!! Renato Lage estreou na minha Mocidade. Com ele fui campeão por mais três vezes desfilando em todos os seus carnavais inesquecíveis. Foram treze anos de delírios, alegrias, emoções incomparáveis, felicidade plena… anos gloriosos da minha escola.
Com a saída do Mago Renato, decidi parar de desfilar, mas nunca de torcer e amar, mesmo em momentos difíceis e de decepções.

Como fotógrafo do carnaval, sempre considero a passagem da minha Mocidade como o momento mais difícil de trabalhar, captar imagens… a emoção é incontrolável, inexplicável, talvez só comparável à dos Independentes “loucos de paixão”, que vejo desfilando e assistindo nossa amada passar.

Mocidade é ziriguidum, paixão, inovadora, chuê chuá, Oxóssi, vanguarda, Boate Saci, prazer de viver, céu de Sherazade, é Padre Miguel.

E lá se vão trinta e cinco anos, desde aquela manhã de paixão à primeira vista, e meu orgulho continua o mesmo, sem medo de ser feliz, batendo no peito e sempre clamando: SOU MOCIDADE, SOU INDEPENDENTE!!!

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DECLARAÇÕES

“Ser “independente” é ter orgulho e honra de pisar o chão iluminado em verde e branco pela estrela, é banhar-se da luz mágica que emana de seus valores, é se entregar à paixão e à loucura e flertar na sedução e na aventura do pulsar ardente dos seus tambores.

Ser “independente” é lapidar no peito esse sentimento e fazê-lo eterno diamante, é sentir-se amado e ser o fiel amante. Ser “independente” é, independente de berço ou raiz, não traçar fronteiras, vivendo livre e feliz.

Ser “independente”, enfim, é descobrir o Brasil e se encantar com seu Ziriguidum, é sambar pelas viradas dessa vida e mergulhar no afã de encontrar o brilho da estrela mais bonita e cintilante da cidade. Deus faz gente bamba e, tenho certeza que essa gente está em Padre Miguel, pelas bandas da Vila Vintém, onde mora a felicidade e o coração da Mocidade.”
(Alexandre Louzada – Carnavalesco da Escola)

“Vanguarda, povão, tropicalista, indianista, moderna, pós-moderna, provocadora, imagética, irreverente e tão sutil. A Mocidade é tudo isso na batedeira que bate melhor no carnaval. Tem índio de patins no paraíso da loucura. Escafandrista na Festa do Divino. Uirapuru cortando a Maré. Aladin no agogô. Diversão eletrônica, arco-íris de prazer, mulata, gol gay, tem muamba, cordão de ouro e chapéu. É a estrela que me faz sonhar que o Brasil, essa confusão de coisas, só é high tech quando é misturado, independente, pé no chão, cheio de saúde e harmonia e prazer de viver, enquanto o mundo não se abraça pela paz universal. Iemanjá me leve embora se a receita não for essa… A Mocidade é a apoteose brasileira, tupinicopolitana, verdejante, esperançosa, abençoada por Padre Miguel e batuqueira por natureza. Sonha, Mocidade, que essa é a sua sina!”
(Diogo Gardoni – Torcedor)

“Não sou nascido nem criado em Padre Miguel, nem em suas redondezas. Mas desde a minha infância os LPs de samba-enredo eram tocados lá em casa, e os de uma certa verde e branco sempre me prendiam mais a atenção. Não sabia explicar. Ano após ano, eram só os dela que eu sabia de cor.

Até que em um determinado carnaval (1993), já com meus 8 anos, assisti pela primeira vez aos desfiles pela TV, um ritual antigo que minha família já fazia. Foi aí que entendi o porquê daqueles sambas sempre terem me fisgado. Aquela escola com sua incrível bateria aliada a um visual arrojado me conquistou pra sempre. Me identifiquei de cara!

Só depois de crescido que pude frequentar os ensaios e desfilar pela Mocidade. Desde então, não consigo mais me enxergar fora daquilo. Há alguns anos tenho o prazer de fazer parte do Departamento Cultural, preservando e divulgando a memória dessa escola que tem uma legião de apaixonados como eu. Salve a nossa Mocidade!!!”
(Renato Buarque – Diretor Cultural da Escola)

“*Mocidade Independente e a primeira impressão*

Naquele dia de 1990, naquela hora em que um festival de gás néon desembocou no passarela movida a ilusão, fez-se maior a voltagem das tensões dos meus ais, maior ainda a disparada das correntes sanguíneas em ampères sensoriais que os físicos jamais puderam aferir, e assim se estabeleceu a conexão com uma gente movida a percussões e trançar de canetas numa dança pra lá de nossa em mescla miscigenada, banhada de saberes ancestrais. Naquela data parou tempo-espaço, quando a luz que iluminou era estrela, da aurora ao arrebol. Menina-moça de seios fartos, que alimentou de alma gerações inteiras, com gênese e genética em campos de várzea. E que colocou um padre – Miguel – nas bocas de todos, mas partir do festejo de berço pagão, ninado em bacanais que paralisavam a cidade cultuada como eterna.

Tamanho efervescer das misturas do sagrado ecumênico entre um padre e a curimba presente na batida dos seus tambores, com o profano – este também sagrado, adianto – deu em grêmio com nome de juventude, mas fincado ao solo mágico da capital do samba com raiz forte. Pioneira a erguer bandeiras, e que danou de inventar lugares imaginários, porta-voz indianista e das estrelas, foi assim que a descobri e amei, quando percebi, moleque desdentado de tudo, naquele desfile campeão cujo enredo revisitava suas memórias – Vira, virou, a Mocidade chegou” -, sua vocação para a folia com vanguarda. Hoje, toda vez que encontro a pra lá de sessentona agremiação na Avenida, estou sempre em busca – justamente! – de todo o sabor seminal, do relógio na contramão do tempo, desta pungente (e doce) primeira impressão. Assim começou o carnaval para mim. ”
(Fábio Fabato – Torcedor, jornalista, escritor e comentarista de carnaval, é autor de cinco livros)

“Nascido na distante Padre Miguel, meu destino não poderia ser outro que não o de apaixonado por essa Estrela que serve de “guia” para toda uma nação. Ela que colocou no mapa um pequeno e desconhecido bairro, lugar de gente humilde, mas que sabia fazer com maestria uma batucada que podem acreditar:”não existe mais quente”, segue iluminando outros passos e compassos de tanta gente bamba que insiste em amá-la. Ser Independente é acima de tudo amar sem limites e se entregar aos encantos da nossa eterna Mocidade. Aquele chão onde me criei e que hoje com orgulho “mostro na minha identidade”, foi onde me entreguei de corpo e alma há 35 carnavais, está no meu DNA. No entanto costumo dizer que mesmo que eu não tivesse nascido em Padre Miguel, eu seria Independente. A natureza vanguardista, sensual e ousada da Mocidade Independente com toda certeza acabaria por me arrebatar.
A escola que tem nome e sobrenome, o maior expoente cultural da nossa Zona Oeste e que tanto contribuiu para o nosso carnaval brasileiro é parte de mim, afinal “sou natural lá DA Padre Miguel”.
(Ricardo Dias – Foi Presidente da Estrelinha da Mocidade por sete anos, ex-presidente do departamento cultural, social e institucional) 

“Todo meu Amor à Mocidade Independente de Padre Miguel, vem dos tempos de moleque.

Uma vez, chegando de mais um carnaval fora do Rio, me chamau atenção uma mulher loira mandando beijo em cima de uma Estrela que girava… meu pai me explicava todo o universo daquele mundo alegre e divertido, quando percebeu que eu comecei a cantar “Agora a Mocidade chegou” … desse momento pra cá, são 26 anos como torcedor e 10 como componente.

Demorei muito tempo a decidir desfilar pela minha escola, porque antes eu preferia assistir e não perder nenhum momento.

Depois que fiz inúmeras amizades com galeras de Padre Miguel e adjacências, através das redes sociais, nunca mais deixei de desfilar.

Amo demais a energia que o carnaval propõe e tudo que vem atrelado a ele, gosto de todas as escolas, mas é com, para e na Mocidade que meu coração Verde e Branco bate mais forte, perco noção da realidade, a emoção flui de maneira descontrolada. MINHA MOCIDADE GUERREIRA!!!!!”
(Renato Freedman – Torcedor, criador da página “Independentes unidos jamais serão vencidos”)

“Sou um homem de diversas paixões. Algumas passam, mas outras permanecem. Das últimas, nenhuma é mais perene que a Mocidade Independente de Padre Miguel. Existe nome de escola de samba mais bonito que este? Mocidade Independente! É quase um brado, um grito pleno de significados. Amo sua bandeira – essa que praticamente não mudou em seis décadas – a estrela-guia, o bater diferente e sensual de sua bateria. Amo todas as particularidades de uma escola que, pra desfilar, pega o trem ou a Av. Brasil e “desce” pra cidade.

A Mocidade me fez amar o samba, e a importância disso na minha vida simplesmente não se mede, pois o samba me fez uma pessoa melhor. O samba me deu amigos que são como uma família pra mim. O samba aniquilou os poucos preconceitos que eu ainda tinha, me tornando mais sensível, mais humano e menos superficial. Ir atrás de tudo o que me emociona na Mocidade me fez pisar em lugares que talvez nunca pisasse, conhecer gente que talvez nunca conhecesse, viver experiências que talvez jamais vivesse…

A verde-e-branco me fez ver a beleza onde ela não é óbvia, porque o Brasil, o Rio e a Zona Oeste são belos para muito além do cartão-postal. Uma beleza humana, histórica, de vida. Difícil de definir, mas fácil de sentir. Como é bom poder me orgulhar do que é genuinamente nosso. E eu me orgulho, muito! Isso não tem preço.
Salve o samba, salve o Brasil e salve a Mocidade!”
(Pedro Simões – Torcedor)

Brilha, Mocidade. Minha vida, minha paixão, meu amor.

Na aurora de nossas vidas descobrimos as maiores paixões. Geralmente, aquelas talhadas no furor inocente da infância, se tornam eternas. Se pudesse voltar no tempo e observar com olhos que um pai cerra sobre o filho, certamente veria refletir, em meu próprio olhar, a pureza do encantamento que seria um caminho para o resto da vida. Quando colocava o LP de 1990 no toca discos, para enlouquecer os vizinhos e ouvir repetidamente aquele grito de guerra que parecia meio deslocado do restante da gravação, não tinha ideia que nascia, naquela virada, um sentimento tão verdadeiro quanto o mais puro dos amores que vivemos. Ali, criava o elo que seria o ponteiro norteador de quase tudo que fiz. A admiração pelo mar veio da liquidez do abacaxi. O menino sonhador começou a sonhar cada vez mais depois de descobrir que não custava nada. Como pode? Uma criança que não gostava de jogo, passar a jogar vídeo game por causa dela e, claro, do menino dos óculos de efeito especial. Moleque maluco, pedir de aniversário para conhecer a bailarina da cidade? Ninguém entendeu nada! Confesso que meu ceticismo resistiu por mais alguns anos depois de ver Padre Miguel olhar por nós. Ah, e quando a bomba explodiu? Eu só queria meu canto das preocupações adolescentes pra poder chorar de felicidade escondido de todos. Lágrimas tomaram a face contra a vontade ao ser virado do avesso por causa daquele meio ponto que escorreu sob nossos pés.

Dizem que nos momentos difíceis é que os verdadeiros amores se fortalecem. E poucas coisas foram tão difíceis, tão doídas, tão sofridas quanto aquele sete e meio. Não era apenas uma nota injusta, criminosa, discutível. Era um atentado, um tapa na cara do menino que sonhou que um dia, ver que o Brasil podia ser grande e, principalmente, que suas referências culturais pudessem ser respeitadas. Aliás, ela em seu canto do Uirapuru a ecoar de norte a sul, nos saltos cururus diretamente pra dentro do nosso peito, fazia a gola daquela “sodade” deixar a mais importante das lições que aprendi. Não temos como saber quando um problema aparecerá em nosso caminho e, por mais que nos cause sofrimento, é possível se reerguer, se reinventar, se reescrever na forma de viver. Afinal, a vida é um eterno carnaval e nesse desfile cotidiano, sempre haverá um novo ano pra nos libertar de tudo que nos faz mal e nos fazer buscar sempre o melhor. Como o palhaço do circo místico, transforme em alegria, hoje, a lágrima que caiu ontem. O tempo passou, fiquei mais exigente com ela. Hoje, meu olhar é quase de um pai que quer o melhor pra sua filha. Que dá bronca quando as coisas estão erradas, que não elogia pela simples obrigação bem feita, mas que se derrete quando ela olha pra ele de frente e abre os braços para recebe-lo, depois de mais um ano de trabalho. Se a vida é mesmo um carnaval, minha bandeira é verde e branco e minha estrela brilha, acima de tudo, na pele, na alma, no coração.”
(Vicente Almeida – Torcedor)

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