Conversa de Carnaval
5

Topando tudo por dinheiro

25 de julho de 2017
4613 Vizualizações
0 Comentários
6 minutes read
Topando tudo por dinheiro

ANDERSON BALTAR

anderson-baltarEm meu último artigo, fiz um apanhado histórico do quanto as escolas de samba, ao longo de sua existência, se aliaram ao poder oficial – seja para o reconhecimento de suas atividades, seja para o fomento de seus desfiles. Essa é uma relação antiga e que sempre pareceu natural haja visto o caráter totalmente amador da formação das escolas de samba e a necessidade das mesmas serem aceitas pelas classes dominantes como manifestação cultural relevante.

Desta forma, não causaria espanto ou indignação a presença da diretoria da Liesa, acompanhada de vários representantes das escolas de samba, no Palácio do Planalto, em conversa com o presidente da República. Digo isso nas condições normais de temperatura e pressão. No quadro completamente turbulento que o Carnaval carioca atravessa, trata-se de um paliativo que irá aplacar a dor num primeiro momento, mas que poderá trazer graves efeitos colaterais.

Como eu e vários outros analistas estamos apontando há dois meses, o Carnaval carioca vive uma crise sem precedentes. E ela não é meramente financeira. Ela é mercadológica. O desfile das escolas de samba não atinge mais a população como há 20 anos. O carioca comum não sabe mais cantar os sambas das agremiações e, em sua esmagadora maioria, considera o desfile como um espetáculo para poucos – sobretudo para turistas. A alta adesão da população à demagógica decisão do pastor cosplay de prefeito deixa isso muito claro.

As escolas de samba, após o esgotamento do modelo de enredo patrocinado, são incapazes de criar novas fontes de receita, como contratos de TV mais vantajosos, pacotes de marketing direcionado, produtos licenciados, melhor utilização de suas quadras e, principalmente venda de ingressos transparente, pela internet, com aceitação de cartão de crédito e parcelamento dos valores. Pouquíssimas se valem das redes sociais e possuem departamentos de marketing que procurem pensar fora da caixa.

A crise não é só financeira e mercadológica. É institucional, é ética. Após um Carnaval repleto de acidentes, julgamento esdrúxulo e viradas de mesa, era o momento fundamental para que a Liesa e os presidentes das escolas se pusessem a examinar com lupa toda a conjuntura. Que sinalizasse para a sociedade que mudanças fundamentais seriam tomadas para evitar acidentes. Que viessem a público dizer o julgamento seria completamente revisto, com um novo corpo de jurados, verdadeiramente independente e isento de seduções pelo peso de bandeira/influência nos bastidores. Tudo foi encarado olimpicamente como “fatalidade”.

Seria fabuloso que nossos cartolas reconhecessem que o corte de financiamento público está escorado em grande popularidade porque nossas escolas, paulatinamente, deixaram o povo de fora da Sapucaí, refém de vendas de ingresso por telefones que não atendem ou por faxes recém-comprados em brechós. Não fizeram isso e, pior, cogitaram cortar os ensaios técnicos e cometeram o crime supremo de fazer o sorteio da ordem de desfile em um evento pelo qual os sambistas compraram ingresso e sequer puderam acompanhar dignamente, já que o mesmo foi feito em um auditório fechado.

Mas o problema é a falta de um milhão. Com a volta desse dinheiro para os orçamentos, tudo voltaria à normalidade e teríamos, com certeza, o “Maior Espetáculo da Terra” garantido. Reconheço a importância dessa verba – e a defendi inúmeras vezes, seja aqui na Rádio, em artigos no UOL, no plenário da Câmara de Vereadores e nos debates que tenho participado em universidades. Sei que contratos já assinados devem ser respeitados e que, de uma vez por todas, nossos governantes têm que entender que Carnaval não se faz em dois meses. O planejamento de um desfile começa na Quarta-Feira de Cinzas anterior.

Infelizmente, a sensação, diante da postura de nossos mandatários, é a de que tudo agora está muito bem, obrigado. O Carnaval 2018 está garantido. Mas a chance de mudanças fundamentais que urgem ficarão para debaixo do tapete. E, como cereja num pudim intragável, quem ainda sai de mocinho nessa história é o indivíduo que, através das artimanhas que todos conhecemos, se mantém no poder a despeito da taxa de popularidade irrisória e das centenas de acusações que pairam sobre sua cabeça. O mesmo homem que passará para a história como um traidor, destruidor dos direitos trabalhistas e da aposentadoria, é capaz de ser recebido com honras e loas na Sapucaí em 2018.

Nossas escolas de samba se portam como as integrantes das caravanas de Itaquera e Freguesia do Ó, que se estapeiam por notas de 50 voadoras jogadas pelo sorridente Silvio Santos. Cabe a pergunta: vale tudo por dinheiro?

 

Foto: Acervo SBT

Fechado para novos comentários.