Samba Meu
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Um samba para o Outono

20 de abril de 2017
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Um samba para o Outono

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EDUARDO CARVALHO

Preciso fazer um samba para o Outono. Não. Para esse Outono. Esse mesmo, que filtrou a luz do verão e, só por isso, fez-me achar aqui o sorriso quase perdido.

Hoje, estou recusando “Um samba para o amanhecer / Para o nosso amor / Para o renascer / Para acreditar / Um samba para a dor / Para Nelson Cavaquinho / No tempo da beleza”, essa obra-prima de Marcos Sacramento e Carlos Fuchs. Eles, aliás, dizem ainda que deve haver um samba “Para o choro, para o porre / Para o coração / Para o entardecer/ Deve haver um samba / Um samba”…

Não quero. Peço um samba, só um, para esse meu Outono furta-cor que roubou e aprimorou os tons da primavera e, terapeuticamente, manda-me ficar quieto dentro do teu abraço, onde moro.

Hoje, não quero, Chico, “um samba em homenagem à nata da malandragem que conheço de outros carnavais”. Sentindo o vento de inverno que esse Outono bonito tornou brisa fresca, sonho tão somente com um samba dolente que consiga traduzi-lo.

Quero, vê se pode?, um sincopado-miudinho para esse Outono maiúsculo, a quem levei uma vida para dar valor. Eu, que em décadas só quis verão, verei nesse Outono, para sempre, o nosso companheiro permanente.

Preciso, pois, de um samba-Martinho, um laiáraiá versado assim: “Você é meu povo, você é meu samba / Você é a bossa e a minha voz / Pra você, eu trago, um sambinha novo / Que eu fiz na fossa pra cantar a sós”… E depois vou dizer eu mesmo para esse Outono atemporal: sei ser você, malandro, a nossa única saída; p.s.: obrigado!

Passam os invernos-verões aos quais estamos condenados. Vão-se as primaveras-verões que nos escaldam. Vazam os verões-infernos que nos matam. Só o outono, esse Outono dourado, permanece dentro da gente.

Hoje, atravessando esse Outono redentor que apareceu ali na porta, quero só fazer um samba para cantar (como Dona Ivone Lara) “Vai, vai meu samba triste / Vai mostrar que ainda existe o poder do amor / Há de alegrar tanta gente aí / Que desconhece o seu valor”. Simples assim.

Um samba, o mais bonito samba do meu enredo, todinho para ele, para esse Outono estacionado na janela que a gente, feito criança, escolheu para se proteger do mundo mau. Ele mesmo, o que vive deitado no sofá onde a gente conversa sem parar, chora, namora, bebe, gargalha.

É esse Outono, “a estação da alma” para Drummond, quem nos traz todos os sons da pletora de alegria dos que sabem o que é o amor. É ele quem perfuma a nossa casa bem cheia só da gente.

Só esse Outono amolece a realidade e pavimenta a liberdade que a gente escolhe viver todos os dias. É por isso que peço um samba, um pequeno-grande samba, para esse Outono colorido.

Um samba-exaltação, quem sabe levado por Paulinho da Viola no cavaco e Elton Medeiros batucando na caixinha de fósforos, para esse Outono em que tecemos os nossos sonhos. Sonhos que são, ele nos ensina, não para chegar ao Onde, mas simplesmente para viver o Quando.

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