Terreiro do Simas
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Vamos brincar

6 de julho de 2017
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Vamos brincar

LUIZ ANTONIO SIMAS

luiz-antonio-simasCom dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco! O enredo anunciado pela Estação Primeira de Mangueira para o Carnaval de 2018 confirma duas coisas: a Verde e Rosa é uma das instituições culturais mais importantes do Brasil e Leandro Vieira, carnavalesco da agremiação, é um artista e intelectual de ponta imprescindível no meio da borrasca que atingiu em cheio o país, o Rio de Janeiro e as escolas de samba.

Leandro sabe que o carnaval, longe de ser alienante, é a mais politizada das festas brasileiras. O olhar sensível do artista reconhece na gira de caboclo, festa de São Jorge, curimba de Preto Velho, procissão, festival de música, entrudos, corsos, batalhas de confetes e flores, festa da Penha, rodas de capoeira, bailes funk, blocos, rodas de pernada, ranchos, cordões, grandes sociedades, bailes de mascarados e escolas de samba, os espaços de invenção da vida no precário e viração da morte em alegria, gozo e arte.

A festa por aqui, insisto nesta ideia, é espaço de subversão da cidadania roubada. Inventou-se na rua a cidade negada nos gabinetes. Disciplinar a rua, ordenar o bloco, domesticar os corpos e enquadrar a festa, por sua vez, foi a estratégia do poder instituído na maior parte do tempo. Do embate entre a tensão criadora e as intenções castradoras, a cidade se fez como território em disputa que pulsa na flagrante oposição entre um conceito civilizatório elaborado a partir do cânone ocidental, temperado hoje pela lógica empresarial (falida e em consórcio criminoso) e evangelizadora, e um caldo vigoroso de cultura das ruas forjado na experiência da escassez.

Viva Leandro Vieira e viva a Estação Primeira de Mangueira! Viva as culturas de sobrevivência, que são culturas de resistência, supravivência, franjas e frestas. Gosto dos conceitos e sugiro que passemos a cruzar isso com a ideia de culturas solidárias e de contra-ataque, aquelas que terminam driblando o perrengue e fazendo, na marcação do surdo um, o gol nos acréscimos, quando já considerávamos acabado o jogo.

Mergulhando na amplitude das celebrações carnavalescas – sagrado-profanas – como mecanismos de afirmação da vida, com dinheiro ou sem dinheiro, a Mangueira de Leandro Vieira assume o espaço da vanguarda e nos chama para o que temos de mais poderoso do ponto de vista da possibilidade de construção de um Brasil minimamente afirmativo, original e soberano; este que é o contrário do que andamos vendo por aí: a terra da festa como experiência original e subversiva de liberdade e alegria nos infernos.

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