Samba Meu
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Kelly e um Carnaval sem censura

23 de fevereiro de 2017
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Kelly e um Carnaval sem censura

EDUARDO CARVALHO

eduardo-carvalhoNa tarde de terça-feira fui até a Saara carioca. Estava atrás de assunto para a coluna e de um pequeno armário barato de vime para o banheiro. Em algum ponto entre Senhor dos Passos e Buenos Aires, “Cabeleira do Zezé” saía de caixas de som posicionadas na calçada.

Mais para o meio dessa mesma tarde, estava eu na Fonte da Saudade cumprindo afazeres paternos quando passei por um guardador de carros que assoviava “Maria Sapatão”. Na hora, o meu coração se iluminou. “É um bom presságio”, pensei, antes de seguir para o meu próximo compromisso naquele dia: um encontro com João Roberto Kelly, em Copacabana.

A conversa – exclusiva e cheia de revelações para a Rádio Arquibancada, que a publica em seu site nesta sexta-feira de Carnaval, junto com vídeos de Kelly tocando e cantando uma marchinha e um samba inéditos – havia sido marcada na véspera com o próprio pelo meu querido amigo e jornalista Cláudio Renato, que o conhece faz uns 20 anos. Foi com uma mistura de excitação, expectativa, orgulho e incontida emoção que chegamos ao apartamento do último grande compositor de marchinhas carnavalescas e um dos quatro maiores de todos os tempos, ao lado de Haroldo Lobo, Braguinha e Lamartine Babo.

Mal nos sentamos e ele, com um brilho de criança travessa nos olhos, pegou um papel com a letra manuscrita da sua mais nova marcha, feita há poucos dias: “Mulheres Rodadas”. Boquiabertos com a mesma verve, a mesma sagacidade de tantos outros clássicos seus (“Colombina”, “Mulata Bossa Nova”, “Bota a Camisinha”…) o ouvimos cantar “Eu quero uma mulher rodada / Mulher zerinho não está com nada (…) / Eu quero ver o feminismo / Sem modismo, sem paixão / Que entenda como brincadeira / Minha “Cabeleira” e o meu “Sapatão”…

Um soco no estômago da chatice, da “correção política” fabricada no Facebook, desse monte de chato que anda por aí – eu penso. A propósito, quando lhe perguntamos sobre a tal “polêmica das marchinhas” (a respeito da qual já opinei aqui), Kelly foi brilhante na resposta ao se referir aos que querem proibir marchinhas supostamente de cunho racista ou homofóbico:

– Eles se acham tão progressistas, mas estão fazendo o jogo da direita. Censura rima com ditadura.

Ele falou da sua formação musical, dos programas de tevê que apresentou e dos que musicou, da vida boêmia dos tempos idos em Copacabana, de política (“A nossa democracia hoje é um instrumento que está desafinado”, disse), de religião (“Esse Papa dá uma marchinha!”), dos Beatles (“Harmonicamente, eles são o anti-jazz, são a simplicidade genial”) da Bossa Nova, de suas referências na vida e na arte. E revelou que uma dessas referências, o amigo Dorival Caymmi, esse gênio brasileiro, disse-lhe uma vez que gostaria de ter composto “Cabeleira do Zezé”. Que tal?

Kelly estava à vontade. Generoso, mostrou-nos ao piano um samba inédito que acabou de fazer (“Quando eu saio pela rua / É tão grande a confusão / Eu não sei quem é polícia / Eu não sei quem é ladrão / Vejo gente, muita gente / Se mexendo, se virando / Eu não sei quem tá vendendo / Eu não sei quem tá comprando”); tocou e cantou a triste e lindíssima “Boato”, primeiro sucesso da carreira de Elza Soares (“Você foi um boato / Só agora eu sei / Em quem acreditei / Andou de boca em boca no meu coração / Até que um dia desmentiu minha ilusão / Você foi a mentira que deixou saudade / Todo boato tem um fundo de verdade”); cantou e tocou outras belezuras como “Rancho da Praça Onze” (“Esta é a Praça Onze tão querida / Do Carnaval, da própria vida”), parceria dele com Chico Anysio.

Como grande artista popular que sempre foi e continua sendo aos quase 79 anos, João Roberto Esteves Kelly profetizou, em letra, música e ritmo de marcha, esse momento atual de tolas polêmicas. Ele nos lembrou, durante a conversa regada a latinhas de cerveja, que há três anos (há três anos!) fez, com Eduardo Dussek, uma marchinha que diz assim, ó:

Eu sou gostosa, maliciosa, não leve a mal / Politicamente incorreta / Sou a marchinha de Carnaval / Eu sou do jeito que eu quiser / Saio de homem ou saio de mulher / Sem essa de pisar no meu tapete / Sua censura que vá pro cacete”!

É com esses versos desconcertantes, maravilhosos, que deixo vocês rumo a mais um Carnaval. Cada um na sua, na Avenida, nas ruas, nos salões, na televisão, vamos fazer uma festa que, com todo o respeito ao outro, deve ser, sempre e para sempre, um grito de liberdade, com harmonia, sem censura, com ironia, sem frescura, simplesmente genial. Bem assim, como uma marchinha de João Roberto Kelly, esse patrimônio cultural de um Brasil que ainda pode valer a pena.

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