Samba Meu
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Delicadeza que vence o Mal

5 de janeiro de 2017
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Delicadeza que vence o Mal

EDUARDO CARVALHO

eduardo-carvalhoNas últimas semanas, fui procurar, ouvindo alguns dos meus discos de estimação, um tempo que fosse o da delicadeza. O da beleza que desopila o coração apressado, apertado.

Apesar dos tantos pesares que nos cercaram nesse ano que acaba de acabar, encontrei esse tempo quando me vi envolto na trilha sonora da esperança. Trilha que, no ano que acaba de começar, é formada pelos sambas e canções de “O que vai ficar pelo salão”.

Trata-se do primeiro e único (por enquanto) disco de Gabriel Cavalcante – músico e cantor extraordinário, de quem já falei aqui na coluna. É um trabalho irretocável. Ousado, refinado, simples como tudo o que é bom de verdade.

Lançado há seis anos, o CD, só de inéditas, tem composições majoritariamente de Renato Martins e Roberto Didio (algumas com o Gabriel), essa dupla fantástica do Terreiro Grande (grupo de samba sobre o qual também já contei aqui). De repente constatei, de novo, que é obrigatório ouvi-los, na imensidão de voz e talento que é o Gabriel.

Faço esse convite a você, leitor amigo. Você ficará atônito ao escutar coisas como: “O samba é a folha cromada de Gege / Amuleto que guarda quem é de lutar / Rosa feito os lábios de Capiba / É cor de frevo / É a chama nos olhos do negro” (“Seu Camafeu” – Gabriel / Didio). E talvez não saberá como olhar ao redor do mesmo jeito depois de “Os dedos teus / Deslizando em meu rosto / Feito pincéis do desgosto” (“Elmo de São Jorge”, da mesma dupla).

Tentarei dizer de outro jeito.

Ouvir o Gabriel cantar é sentir, na alma da gente, que a Delicadeza venceu – e sempre vencerá – o Mal. É, por meio da música, sentir a Beleza triunfar sobre o Medo. É, em meio aos cretinos desse país que anda tão estranho, ver “As ruas do meu coração / Acesas de repente”, como ele canta num dos sambas.

Aí, a gente vai ouvindo assim: “Cada qual seguiu a sua vocação / Eu fiz um samba triste / Você fez ingratidão” (“O que é de louça” – Renato / Didio), uma jóia feita em homenagem a Paulinho da Viola; e “Baqueta e apito / Na gaveta do infinito / Que não existe, em Mangueira, fevereiro / Sem a ordem do Velho Batuqueiro” (“Velho batuqueiro”, outro Renato / Didio), linda homenagem ao lendário Xangô da Mangueira; e ainda “Costa do Marfim / Ou nas Minas Gerais / Bandeiras de sangue são iguais / Na gíria da favela ou no quimbundo / Canta o povo sofrido do mundo”, na triste – e atualíssima – “Djembê” (Gabriel / Renato / Didio)…

Na faixa sete, rapidamente citada dois parágrafos acima, na metade do seu disco que já nasceu clássico mas ainda não teve o reconhecimento que precisa ter, Gabriel rende uma das mais bonitas homenagens ao samba, razão de ser de sua voz, de seu cavaquinho, de sua música, de sua vida. Em “Quando o samba veio me buscar” – na minha modesta opinião, o verdadeiro nome do disco –, com uma simplicidade só alcançada por quem sabe das coisas, ele canta a letraça que o Didio botou na bela melodia de Moacyr Luz: “Passou assim / Feito procissão incandescente / As ruas meu coração / Acesas de repente / E o nó na garganta se desfaz / Quando passa nas cordas vocais / A intenção luminosa do samba / Minha vida é um cata-vento / Que começou a girar / Quando o samba veio me buscar”. Que pancada.

Por isso e muito mais (ouçam, ouçam!), esse disco é, sem tirar nem pôr (e sem favor), uma pequena obra-prima – a não ser que tenham redefinido esse conceito e eu não esteja sabendo. Em tudo: nos arranjos, nos parceiros, nos músicos, nas participações (Áurea Martins, Cristina Buarque, Moacyr Luz, Amélia Rabello). E na coragem de gravar um repertório todo inédito, quando o que mais se viu nos últimos dez anos na música do Brasil foi gente grande fazendo releituras…

Ô, rapaz: esse teu trabalho sublime continua sendo, no fundo, uma ode à delicadeza que o dia a dia mesquinho nos fez e nos faz julgar perdida. E é assim que ele, o teu disco, tira a gente do prumo.

Sabe por quê? Eu sei e-xa-ta-men-te. Mas, como me faltou o talento para explicar, fui buscar a explicação perfeita e genial que o mesmo Roberto Didio deu tempos atrás, daquela vez sobre o trabalho do Terreiro Grande com a Cristina Buarque. Escreveu o poeta, na ocasião (e as palavras são precisas também para o significado desse teu definitivo disco):

“Em tempos de superexposição, onde a padronização cultural é lei, comemoramos a delicadeza transgressora deste trabalho. (…) Cuidando da memória, sempre, sem descuidar da revolução. Ainda: valiosíssimo encontro de amigos! Na cara da desumanização, no vagar, ergue a escassa lamparina da utopia (…).”

Não à toa, o CD termina com um samba-brinde à amizade, “O fino da vida” (Renato / Didio): “Guerreando em batalhas perdidas / Sem deixar um companheiro no chão / Amigo é o fino da vida / É o que vai ficar pelo salão / (…) Garçom, mais duas doses de bebida / Que a saudade está comigo no balcão”.

Garçom, por favor!

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